Diagnóstico e tratamento
Rinite Alérgica
Muita gente chega ao consultório depois de anos usando descongestionante nasal, respirando pior que antes. Vamos explicar por que isso acontece e como se livrar dessa armadilha.
A rinite alérgica tem tratamento, e ele trabalha em três frentes: reduzir a exposição ao que desencadeia a crise, controlar a inflamação com medicação, e mudar a resposta do organismo com imunoterapia. Qual delas pesa mais depende de qual rinite é, e é isso que a avaliação procura definir.
O que é rinite alérgica?
Rinite alérgica é uma inflamação da mucosa nasal desencadeada por alérgenos como ácaros, pólens, fungos e epitélios de animais, mediada por IgE e associada a respostas do tipo T2. O impacto vai além do nariz, afetando sono, produtividade, desempenho cognitivo e, frequentemente, coexistindo com asma ou conjuntivite.
Quão comum é a rinite alérgica?
A rinite alérgica é uma das doenças crônicas mais frequentes. Segundo as diretrizes internacionais ARIA (Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma), ela afeta cerca de 500 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, o estudo ISAAC (International Study of Asthma and Allergies in Childhood), em sua fase 3, encontrou rinoconjuntivite alérgica no último ano em 8,9% a 28,5% dos adolescentes de 13 a 14 anos e em 10,3% a 17,4% das crianças de 6 a 7 anos, com variação conforme a região do país. Esses números ajudam a entender por que espirros, coriza e nariz entupido persistentes estão entre as queixas mais comuns no consultório.
Rinite e asma: a via aérea única
O nariz e os brônquios fazem parte de uma mesma via respiratória e, por isso, a rinite e a asma costumam caminhar juntas, um conceito conhecido como via aérea única. O próprio nome das diretrizes internacionais, ARIA (rinite alérgica e seu impacto na asma), reflete essa ligação. Grande parte de quem tem asma também tem rinite, e a rinite mal controlada pode dificultar o controle da asma. Avaliar e tratar o nariz faz parte, portanto, do cuidado com toda a via respiratória, e não apenas do conforto nasal.
Sintomas mais comuns
Espirros em salvas, coriza aquosa, prurido nasal e ocular, congestão nasal e redução do olfato são manifestações típicas que variam em intensidade e frequência. Os sintomas podem surgir em surtos, ligados a um alérgeno específico (como pólen em certas épocas), ou estar presentes ao longo de quase todo o ano (como na alergia a ácaros).
Como se confirma o diagnóstico
O diagnóstico se baseia na história clínica detalhada, no exame otorrinolaringológico e, quando indicado, na confirmação da sensibilização alérgica por testes cutâneos ou IgE específica. Pelas diretrizes ARIA, a rinite é classificada quanto à duração (intermitente ou persistente) e à intensidade (leve ou moderada a grave), o que orienta diretamente a escolha do tratamento. Diferenciar a rinite alérgica de outros fenótipos, como a rinite não alérgica ou a rinite alérgica local, é essencial para definir a melhor conduta.
Tratamento médico
O plano terapêutico integra redução da exposição a alérgenos e irritantes, higiene ambiental, higiene nasal e farmacoterapia baseada em evidências. A lavagem nasal diária com solução salina isotônica auxilia no controle das secreções e na eficácia dos sprays intranasais. Anti-histamínicos de segunda geração e corticosteroides intranasais são os pilares do tratamento, podendo-se associar antagonistas de leucotrienos conforme o quadro. Os descongestionantes têm uso restrito e por curto período. A diferença entre a primeira e a segunda geração de antialérgicos importa no dia a dia: a de segunda dá muito menos sono, e é a que se usa de forma continuada.
Quando o spray descongestionante vira o problema
Quem tem rinite alérgica é quem mais cai na armadilha do spray descongestionante, e a razão é simples: o nariz vive entupido e o spray desentope em minutos. O uso diário e prolongado inverte esse efeito. O nariz volta a entupir cada vez mais rápido, a dose sobe para dar o mesmo alívio, e a pessoa passa a depender do spray para respirar. O quadro tem nome, rinite medicamentosa, e o entupimento que ele causa já não é o da alergia: é do próprio remédio.
A saída é programada e feita na consulta: retirada do vasoconstritor, com um corticosteroide intranasal cobrindo os dias piores, junto do tratamento da rinite que levou ao spray, para o nariz não pedir o spray de volta. Descrevo o mecanismo em detalhe, com as marcas mais comuns, na página de hipertrofia de cornetos.
Imunoterapia com alérgenos
A imunoterapia específica com alérgenos, por via subcutânea ou sublingual, é o único tratamento capaz de modificar o curso natural da rinite, induzindo tolerância e benefício que se mantém após o término. Diretrizes internacionais e brasileiras a recomendam quando os sintomas persistem apesar do tratamento padrão ou quando há o desejo de reduzir a carga de medicamentos. Cursos de três a quatro anos mostram melhora consistente dos sintomas e da qualidade de vida, com bom perfil de segurança em protocolos adequados. Em crianças com rinoconjuntivite por pólen de gramíneas, um estudo controlado de cinco anos (o estudo GAP) mostrou que a imunoterapia sublingual reduziu os sintomas de asma e a necessidade de medicação para asma durante o acompanhamento, reforçando seu papel de modificar a doença.
Quando considerar imunobiológicos e cirurgia
Em situações específicas, com inflamação tipo 2 intensa ou comorbidades, terapias biológicas como anti-IgE e moduladores de IL-4/13 vêm sendo estudadas e podem ser consideradas, sempre por especialista. Procedimentos cirúrgicos nasais podem ser úteis na obstrução nasal refratária por alterações estruturais associadas, como desvio septal ou hipertrofia de cornetos, complementando o manejo clínico.
Plano personalizado e acompanhamento
A escolha entre sprays, comprimidos e imunoterapia deve considerar as preferências do paciente, o estilo de vida e as metas de tratamento, para favorecer a adesão e os resultados. Reavaliações periódicas permitem ajustar doses, revisar a técnica de aplicação dos sprays e otimizar o controle ao longo das temporadas de maior exposição.
Cuidado em São Paulo e Alphaville
Na consulta, a avaliação começa pela história (o que desencadeia, em que época do ano, o que já foi tentado) e segue com a endoscopia nasal, que eu faço ali mesmo. É ela que mostra o estado da mucosa e dos cornetos, e que separa a rinite de um desvio de septo, de pólipos ou de uma sinusite, quadros que dão queixa parecida e pedem conduta diferente.
Quando é preciso confirmar a alergia, eu peço exame de sangue, o IgE específico, em vez do teste cutâneo: ele identifica a que a pessoa é sensibilizada sem picada e sem exigir que se suspenda o antialérgico nos dias anteriores. Com esse mapa eu conduzo o tratamento clínico e a cirurgia nasal, se ela entrar. A imunoterapia é conduzida pelo alergista, e é para ele que eu encaminho.
Atendo no Morumbi e no Itaim (São Paulo) e em Alphaville (Barueri).
Próximos passos
Pacientes com espirros recorrentes, nariz entupido crônico, rinorreia transparente e coceira nasal ou ocular se beneficiam de avaliação especializada para confirmar o fenótipo e iniciar o tratamento direcionado. Quanto mais cedo o controle é alcançado, maior a chance de reduzir o impacto no sono, no desempenho diário e na qualidade de vida ao longo do ano.
O Dr. José Eduardo Marcondes é médico otorrinolaringologista (CRM-SP 107.711 | RQE 43.840), com atuação em rinologia e cirurgia nasal, atendendo no Morumbi e no Itaim (São Paulo) e em Alphaville (Barueri). Se fizer sentido para você, agende uma avaliação para conversarmos sobre o seu caso.
Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.
Referências
1. Solé D, Camelo-Nunes IC, Wandalsen GF, Rosário Filho NA, Naspitz CK; Brazilian ISAAC’s Group. Prevalence of rhinitis among Brazilian schoolchildren: ISAAC phase 3 results. Rhinology. 2007;45(2):122-128.
2. Bousquet J, Khaltaev N, Cruz AA, et al. Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma (ARIA) 2008 update. Allergy. 2008;63(Suppl 86):8-160.
3. Bousquet J, Schünemann HJ, Togias A, et al. Next-generation ARIA guidelines for allergic rhinitis based on GRADE and real-world evidence. J Allergy Clin Immunol. 2020;145(1):70-80.
4. Valovirta E, Petersen TH, Piotrowska T, et al. Results from the 5-year SQ grass sublingual immunotherapy tablet asthma prevention (GAP) trial in children with grass pollen allergy. J Allergy Clin Immunol. 2018;141(2):529-538.
Perguntas frequentes sobre rinite alérgica
O que é rinite alérgica?
A rinite alérgica é uma inflamação da mucosa nasal desencadeada pelo contato com substâncias como ácaros, pólens, fungos e pelos de animais. Além de causar desconforto nasal, ela pode prejudicar o sono, a concentração, a produtividade e a qualidade de vida.
Quais os sintomas mais comuns da rinite alérgica?
Os sintomas mais comuns incluem espirros em sequência, coriza aquosa, coceira no nariz, congestão nasal e prurido nos olhos. Em alguns casos, também pode haver redução do olfato, sensação de nariz sempre entupido e piora dos sintomas em determinados ambientes.
Lavagem nasal ajuda no tratamento da rinite alérgica?
Sim. A lavagem nasal com solução salina pode ajudar a remover secreções, reduzir irritantes e complementar o tratamento da rinite alérgica. Em muitos casos, ela é associada a medidas de controle ambiental e ao uso de sprays nasais e antialérgicos, conforme a intensidade dos sintomas.
O que é imunoterapia para rinite alérgica?
A imunoterapia com alérgenos é um tratamento que busca reduzir a sensibilidade do organismo às substâncias que desencadeiam a alergia. Ela pode ser indicada quando os sintomas persistem apesar do tratamento habitual, e pode oferecer benefício prolongado após o término do ciclo terapêutico.
Quando a cirurgia é indicada para rinite alérgica?
A cirurgia não trata a rinite alérgica em si, mas pode ser útil quando existem alterações estruturais associadas, como desvio de septo ou hipertrofia de cornetos, que agravam a obstrução nasal. Nesses casos, o procedimento atua como complemento ao tratamento clínico, com o objetivo de melhorar a respiração.
Rinite alérgica tem cura?
Na maioria das vezes a rinite alérgica é uma condição crônica, mas tem bom controle. Com medidas ambientais, o tratamento medicamentoso certo e, em casos selecionados, imunoterapia, é possível passar a maior parte do tempo sem sintomas. A imunoterapia com alérgenos pode modificar o curso da doença e trazer um benefício que se mantém após o fim do tratamento.
Rinite alérgica e asma estão relacionadas?
Sim. O nariz e os brônquios fazem parte da mesma via respiratória, e rinite e asma frequentemente coexistem, o chamado conceito de via aérea única. Tratar bem a rinite ajuda inclusive no controle da asma, por isso vale avaliar e cuidar das duas condições em conjunto.
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Dr. José Eduardo Marcondes, médico otorrinolaringologista (CRM-SP 107.711 | RQE 43.840). Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.
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