Diagnóstico e tratamento

Cera no ouvido: quando tirar

Ouvido tampado, audição abafada, e o cotonete que parecia resolver só piorou. Em vez de tirar a cera, ele a empurra para o fundo do canal, que é onde ela bloqueia. Vamos explicar por que isso acontece e quando procurar avaliação.

A cera do ouvido (cerume) não é sujeira. É uma secreção produzida pela pele do próprio canal auditivo, e ela trabalha a favor: retém poeira, resíduo e micro-organismos antes que cheguem ao tímpano, e mantém a pele do canal lubrificada. Em condições normais ninguém precisa fazer nada com ela. O canal se limpa sozinho, num movimento lento de dentro para fora, ajudado pela mastigação e pelos movimentos da mandíbula, e a cera velha é eliminada sem que a pessoa perceba.

O problema aparece quando esse caminho de saída é interrompido e a cera se acumula num ponto do canal, formando o que o paciente chama de rolha de cera e o que a literatura chama de impactação. E o ponto que costuma surpreender quem chega ao consultório é este: nem sempre o problema é produzir cera demais. Cera normal, empurrada para o fundo do canal, bloqueia do mesmo jeito.

Quando a cera precisa sair, e quando não precisa

Nem toda cera precisa ser retirada, e essa é a primeira coisa que eu explico no consultório. A diretriz de cera de ouvido da Academia Americana de Otorrinolaringologia (AAO-HNSF) define a impactação como o acúmulo de cera que causa sintoma, que impede o exame do ouvido, ou os dois, e recomenda expressamente não tratar de rotina a cera de quem não tem sintoma nenhum e cujo ouvido pode ser examinado normalmente (ref. 1). Ver cera no canal, por si só, não é motivo de procedimento.

O que muda a conversa é que quem chega ao consultório com o ouvido tampado já está do outro lado dessa linha. Se há sintoma, ou se a cera me impede de ver o tímpano, ela sai. É raro eu examinar um ouvido nessas condições e não remover a cera na mesma consulta. O que se decide ali não é se a cera sai: é por qual das técnicas ela sai.

O que a cera bloqueando o canal causa

O sintoma que traz quase todo mundo é a sensação de ouvido tampado, com a audição abafada de um lado, como se houvesse algodão dentro. Alguns pacientes descrevem peso ou pressão, outros percebem estalos ao mastigar ou bocejar, e há quem chegue por causa de coceira no canal ou de zumbido que apareceu junto com o entupimento.

Um detalhe que costuma passar despercebido: o ouvido entope logo depois do banho, da piscina ou do mar. A cera absorve água e incha, e uma camada que estava apenas encostada na parede do canal passa a fechá-lo por completo. O ouvido não piorou naquele dia, ele só terminou de fechar.

Quando o bloqueio é completo, a queda de audição pode ser bem perceptível e assusta. Ela é do tipo condutiva, ou seja, o som está sendo barrado no caminho, antes de chegar ao ouvido interno. Não é problema do nervo auditivo, e é por isso que a audição volta assim que o canal é desobstruído.

Por que o cotonete piora

O canal auditivo é curto e faz uma curva no meio do caminho. A cera é produzida só na parte de fora, onde a pele tem glândulas; a parte de dentro, junto ao tímpano, é pele fina e sem glândula nenhuma. Todo o sistema é feito para levar a cera de dentro para fora, como uma esteira lenta.

O cotonete faz o caminho contrário. Ele tem quase o diâmetro do canal, então a ponta funciona como um êmbolo: tira um pouco de cera da entrada, que é a parte que aparece e dá a impressão de limpeza, e empurra o resto para além da curva, onde a esteira não alcança e a pessoa não consegue mais tirar. É por isso que o alívio dura pouco e o entupimento volta maior do que era.

Vale para a haste flexível e vale para grampo, chave, tampa de caneta e o que mais se costume improvisar. Vale também para a vela de ouvido, que a diretriz da AAO-HNSF desaconselha expressamente, tanto para tratar quanto para prevenir (ref. 1).

A limpeza que faz sentido é a da orelha por fora, no banho, com água e sabão neutro. Dentro do canal não entra nada.

Como a cera sai, no consultório

A consulta começa pelo exame do canal. Eu olho com o otoscópio e, quando quero enxergar melhor o fundo do canal e o tímpano, com o endoscópio, que dá a imagem ampliada da videootoscopia. Ver bem antes de encostar em qualquer coisa é o que separa uma remoção tranquila de uma remoção às cegas.

Confirmado o bloqueio, a cera sai por uma de três técnicas, e eu escolho pelo que o exame mostra:

  • Lavagem com soro morno. Um jato controlado de soro fisiológico aquecido, que descola a cera da parede do canal e a traz para fora.
  • Aspiração. Uma cânula fina ligada a um aspirador, que retira a cera sem precisar entrar líquido no ouvido.
  • Curetagem ou pinça, sob visão. Instrumentos delicados que pegam a cera e a puxam inteira, sem empurrar nada para dentro.

Nenhuma das três é “o método”. Existe a que serve àquele canal, e a próxima seção explica o que faz a escolha pender para um lado ou para o outro.

E uma coisa que costuma ser a primeira pergunta de quem liga: não é preciso pingar nada em casa antes de vir. A remoção é feita na própria consulta, sem preparo prévio.

Por que a técnica muda de um caso para outro

Esta é a parte que quase nunca é explicada e é a que mais importa. A escolha da técnica não é preferência de estilo, é consequência do que o exame mostra. Dois exemplos concretos, e eles são situações opostas.

Quem está com o tímpano perfurado não leva água no ouvido. Aí eu prefiro a cureta, que retira a cera sem molhar nada. Jogar soro num ouvido com o tímpano aberto é justamente o que se evita, porque o líquido passa para a orelha média.

Quando a cera está muito profunda, colada perto do tímpano, é o contrário. Instrumento ali é encostar numa região sensível e no próprio tímpano. Nesse caso eu prefiro a lavagem com soro morno, que descola a cera à distância, sem tocar no fundo do canal.

A diretriz da AAO-HNSF trabalha com a mesma lógica: ela manda avaliar, antes de remover, os fatores que mudam a conduta, e nomeia entre eles o tímpano não íntegro, o canal estreito, as saliências ósseas do canal (exostoses), o uso de anticoagulante, o diabetes e a imunossupressão (ref. 1). Não é a mesma remoção para todo mundo, e é por isso que o exame vem antes do instrumento.

Para quem é e para quem não é

A remoção no consultório é para quem tem sintoma de ouvido bloqueado, para quem precisa ter o ouvido examinado e a cera impede, e para quem usa aparelho auditivo, fone intra-auricular ou protetor e acumula cera com frequência. A diretriz da AAO-HNSF chega a recomendar que o canal de quem usa aparelho auditivo seja examinado com otoscópio nas consultas de rotina (ref. 1).

Não é para quem não tem sintoma nenhum e tem o canal visível ao exame. Aí a conduta é deixar como está.

E há um ponto que vale mais que os outros desta página: ouvido tampado nem sempre é cera. Pode ser líquido atrás do tímpano, que é a otite média; pode ser pressão, como acontece no avião e ao descer a serra; e pode ser perda auditiva de outra origem. Se a cera sai e o ouvido continua abafado, a causa era outra e a investigação continua. A própria diretriz orienta isso: resolvida a impactação, se o sintoma persiste, procura-se outro diagnóstico (ref. 1).

Na consulta eu vejo qual dos casos é o seu.

Perguntas frequentes sobre cera no ouvido

Preciso pingar alguma coisa no ouvido antes de ir à consulta?

Não. A remoção é feita na própria consulta, sem preparo em casa. Se você já começou a usar alguma gota por conta própria ou por orientação de outro profissional, não tem problema: é só avisar no dia.

Dá para resolver na mesma consulta?

Na grande maioria das vezes, sim. Depois do exame do canal, a cera que está bloqueando é retirada ali mesmo. O que muda de um paciente para outro não é a decisão de tirar, é a técnica usada para tirar.

De que jeito a cera é tirada?

Por uma de três técnicas: lavagem com soro fisiológico morno, aspiração com cânula fina, ou remoção com cureta ou pinça sob visão. A escolha depende de onde a cera está, da consistência dela e das condições do canal e do tímpano, e é feita depois do exame com otoscópio e endoscópio.

E se eu já tive o tímpano furado?

Conte isso na consulta, porque muda a técnica. Com o tímpano perfurado, a preferência é retirar a cera com cureta, sem água, já que o líquido passaria para a orelha média. É um dos motivos pelos quais o exame vem antes de qualquer procedimento.

Posso usar cotonete ou haste flexível para limpar o ouvido?

Não. A haste tem quase o diâmetro do canal e funciona como um êmbolo: tira a cera da entrada e empurra o resto para além da curva do canal, onde a limpeza natural não alcança. Além de favorecer o entupimento, pode machucar a pele do canal e o tímpano. A limpeza deve se limitar à parte externa da orelha.

Posso lavar o ouvido em casa com seringa ou pera de borracha?

Não é recomendado. Sem enxergar o canal, não há como saber onde a cera está, se o tímpano está íntegro nem qual a pressão que está sendo aplicada. Água em um ouvido com o tímpano perfurado é exatamente o que se evita, e é uma condição que muita gente tem sem saber.

Por que em algumas pessoas a cera entope sempre?

A saída natural da cera depende do formato do canal e de ele ficar desobstruído. Canal mais estreito ou mais curvo escoa pior. E tudo o que passa muitas horas dentro do canal, como fone intra-auricular, aparelho auditivo e protetor de ouvido, atrapalha esse escoamento e ainda comprime a cera contra a parede. Some-se o cotonete, que empurra. Quem usa aparelho auditivo tem inclusive uma recomendação própria na diretriz da AAO-HNSF: examinar o canal com otoscópio nas consultas de rotina (ref. 1). Há também variação individual na quantidade e na consistência da cera.

Onde fazer a remoção de cera do ouvido em São Paulo?

O atendimento acontece em três endereços: Itaim Bibi e Morumbi, em São Paulo, e Alphaville, em Barueri. Os endereços completos e as formas de contato estão na página de contato.

Referências

1. Schwartz SR, Magit AE, Rosenfeld RM, et al. Clinical Practice Guideline (Update): Earwax (Cerumen Impaction). Otolaryngology-Head and Neck Surgery. 2017;156(1 Suppl):S1-S29 (American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery Foundation). doi:10.1177/0194599816671491

Cuide dos seus ouvidos.

O diagnóstico é individual. Agende sua consulta e descubra o que se aplica ao seu caso.

Dr. José
Eduardo
Marcondes

Médico Otorrinolaringologista
CRM-SP 107.711 · RQE 43.840

Este conteúdo não substitui a consulta médica.

Locais de atendimento

  • Itaim Bibi
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