Diagnóstico e tratamento
Labirintite ou VPPB? A tontura que vem quando você vira a cabeça
Quase todo mundo chama de labirintite. Na maior parte das vezes é outra coisa, com outro nome, outro mecanismo e outro tratamento, e esse tratamento costuma acontecer dentro da própria consulta.
“Doutor, acho que estou com labirintite”
É assim que a conversa começa quase sempre. A pessoa virou na cama, o quarto girou, passou em alguns segundos, e no dia seguinte alguém disse que era labirintite.
Labirintite quer dizer, ao pé da letra, inflamação do labirinto, que é o órgão do ouvido interno onde ficam a audição e o equilíbrio. Isso existe, mas é incomum. A palavra virou no Brasil o nome genérico de qualquer tontura, e é por isso que ela quase nunca descreve exatamente o que a pessoa tem.
Na maior parte das vezes, a tontura que gira, dura segundos e vem com o movimento da cabeça tem outro nome: vertigem posicional paroxística benigna, a VPPB. Ela é o distúrbio de equilíbrio do ouvido interno mais comum ao longo da vida. E o nome, embora comprido, diz tudo: posicional porque depende da posição da cabeça, paroxística porque vem em crises curtas, benigna porque não é sinal de doença grave.
Saber o nome e o diagnóstico certo muda a conduta, e é por isso que essa diferenciação é importante. Não é questão de vocabulário. O que trata a VPPB não é remédio, é uma manobra, feita no próprio consultório.
O que é a VPPB: um cristal fora do lugar
Dentro do ouvido interno existem pequenos cristais de cálcio, do tamanho de grãos de poeira. O lugar deles é uma câmara onde funcionam como um sensor de gravidade, informando ao cérebro para onde é “para baixo”.
Com o tempo, ou após uma pancada na cabeça ou mesmo sem motivo nenhum que se descubra, alguns desses cristais se soltam e caem num dos canais vizinhos, que são os canais semicirculares. Ali eles não deveriam estar.
Esses canais funcionam como um nível de bolha ou como um acelerômetro de celular: eles sentem o movimento da cabeça pelo líquido que se desloca dentro deles. Com um cristal solto lá dentro, cada vez que você muda a posição da cabeça o cristal rola, arrasta o líquido junto e o canal manda ao cérebro um aviso de movimento que não está acontecendo. O cérebro recebe a informação de que você está girando enquanto os olhos dizem que você está parado. Esse desencontro é a vertigem.
Na maior parte das vezes não se encontra uma causa. Em alguns casos, ela aparece depois de um trauma na cabeça.
Como ela se manifesta: segundos, e sempre com o movimento
O padrão da VPPB é característico, e é ele que faz o diagnóstico:
- Dura segundos. Normalmente menos de um minuto. Não é uma tontura que fica o dia inteiro.
- Vem com um movimento específico. Deitar, virar na cama, levantar da cama, olhar para cima (pendurar uma roupa, pegar algo na prateleira de cima) ou abaixar a cabeça.
- Gira. O paciente descreve o quarto rodando, não um mal-estar vago ou uma sensação de desmaio.
- Costuma vir sem perda de audição e sem zumbido. Quando esses dois aparecem, é sinal de que pode ser outra coisa.
- Pode vir com enjoo. O enjoo às vezes dura mais que a vertigem e deixa a pessoa indisposta por horas, o que confunde.
Uma pista que o paciente costuma trazer sozinho: ele já descobriu de qual lado não pode deitar. Essa informação é útil e vale contar na consulta.
Quando a tontura não é esse padrão: o que me faz investigar antes
Nem toda tontura é VPPB, e separar uma coisa da outra é a primeira tarefa da consulta. Alguns sinais de alerta existem se a tontura vier acompanhada de:
- perda de audição que apareceu junto com a tontura, de um lado só
- zumbido novo e persistente
- dor de cabeça forte, diferente das suas dores de cabeça de sempre
- visão dupla, fala enrolada, fraqueza ou dormência em um lado do corpo
- dificuldade de andar ou de ficar em pé que persiste depois que a vertigem passou
- tontura contínua, que não melhora quando você fica parado, durando horas ou dias
Esses sinais não combinam com VPPB e pedem avaliação imediata. Vale o mesmo para quem teve queda por causa da tontura, para quem já tem dificuldade de equilíbrio por outro motivo e para quem mora sozinho: o risco de cair muda o cuidado, e isso entra na conversa da consulta.
Labirintite, neurite vestibular, Ménière e enxaqueca vestibular: as outras causas
Quase todos esses quadros chegam ao consultório com o mesmo apelido, e é importante separá-los, porque o tratamento de cada um é diferente.
Num estudo britânico de atenção primária, entre as pessoas que procuraram o médico por vertigem, a VPPB respondeu por 42% dos casos, a neurite vestibular por 41% e a doença de Ménière por 10%.
Labirintite e neurite vestibular. Começam de repente, com tontura forte e contínua que dura horas ou dias seguidos e não depende da posição da cabeça. A diferença entre as duas está na audição: quando a parte auditiva do ouvido interno também é atingida, aparecem perda de audição e zumbido, e é esse acometimento que caracteriza a labirintite; a neurite vestibular costuma poupar a audição.
Doença de Ménière. Vem em crises que duram horas, com perda de audição que oscila, zumbido e sensação de ouvido cheio do lado afetado. Também não é disparada por posição nenhuma da cabeça, e o enjoo costuma ser mais prolongado e mais incapacitante.
Enxaqueca vestibular. É mais comum do que parece. São crises de tontura que duram de 5 minutos a 72 horas, em quem tem ou já teve enxaqueca, e que em pelo menos metade das crises vêm acompanhadas de dor de cabeça, incômodo com luz ou com som, ou alterações visuais.
A audição é o sinal que mais ajuda a separar a VPPB da labirintite e da doença de Ménière: perda de audição aguda não acontece numa crise de VPPB. Da neurite vestibular e da enxaqueca vestibular, o que separa é a duração e o gatilho, não a audição.
E uma observação que explica boa parte da confusão: a VPPB pode aparecer junto com qualquer um desses quadros, ou como consequência deles. Ter um não exclui o outro, e é por isso que é fundamental uma avaliação bem feita para entender exatamente a causa de cada uma dessas tonturas.
Como fecho o diagnóstico: a manobra de Dix-Hallpike, na própria consulta
O diagnóstico da VPPB é clínico, feito na cadeira do consultório, e tem nome: manobra de Dix-Hallpike.
Funciona assim. Eu sento o paciente na maca, viro a cabeça dele 45 graus para um lado e o deito rapidamente para trás, com a cabeça um pouco pendente. Se houver cristal solto no canal daquele lado, a vertigem aparece em alguns segundos, e junto com ela um movimento involuntário dos olhos chamado nistagmo, com uma direção característica que eu observo de perto.
É esse movimento dos olhos que fecha o diagnóstico. Ele diz três coisas de uma vez: que é VPPB, de qual lado e de qual canal. Se o teste der um movimento diferente, ou nenhum, eu faço um segundo teste, deitado, que avalia outro canal.
E aqui vai um aviso: a manobra provoca a vertigem de propósito. É desconfortável por alguns segundos e passa. É esse desconforto curto que evita exames, semanas de espera e tratamento no escuro.
Por que, no quadro típico, exames complexos não são necessários
Esta é a parte que mais surpreende quem chega ao consultório esperando um exame.
Quando o quadro é típico e a manobra confirma o diagnóstico, exame de imagem e exame de equilíbrio não acrescentam nada. A diretriz americana de VPPB, que é a referência internacional sobre o assunto, recomenda contra pedir imagem e contra pedir teste vestibular nessa situação. Não é questão de economia: é que o exame não mostra o cristal solto, não confirma nem afasta o diagnóstico, e atrasa um tratamento que poderia ter sido feito no mesmo dia. O que identifica o canal acometido é a manobra no consultório.
A condição está na própria recomendação, e eu a sigo: isso vale para o quadro típico, sem nenhum dos sinais discordantes da seção anterior. Quando há sinal que não combina, o exame entra, e entra por um motivo claro.
O tratamento: a manobra de reposicionamento, na mesma consulta
Se o diagnóstico fechar, eu trato ali mesmo, na mesma consulta.
O tratamento é uma segunda sequência de movimentos da cabeça, a manobra de reposicionamento, mais conhecida pelo nome de quem a descreveu: manobra de Epley. A lógica é direta: se o problema é um cristal no lugar errado, a manobra leva esse cristal de volta para a câmara onde ele não causa sintoma. São algumas posições da cabeça, mantidas por cerca de 20 a 30 segundos cada, na ordem certa para o canal que o teste identificou.
É por isso que o diagnóstico importa tanto: a manobra é específica para o lado e para o canal. Feita no canal errado, não resolve.
A diretriz americana classifica o reposicionamento como recomendação forte, que é o grau mais alto que ela usa, apoiada em revisões sistemáticas de ensaios clínicos. Na revisão Cochrane citada por ela, a manobra foi mais eficaz que o procedimento simulado tanto para a resolução dos sintomas quanto para negativar o teste diagnóstico. Um dos ensaios incluídos nessa revisão comparou a manobra de reposicionamento com uma semana de exercícios de Brandt-Daroff, feitos em casa três vezes ao dia: no sétimo dia, o teste diagnóstico estava negativo em 80,5% de quem fez a manobra e em 25% de quem fez os exercícios.
Às vezes uma manobra resolve. Às vezes é preciso repetir, no mesmo dia ou no retorno. Eu reavalio em até um mês para confirmar se o quadro se resolveu mesmo, que é o que a diretriz recomenda, e para procurar outra causa se o sintoma persistir.
“E o remédio que eu já tomo para tontura?”
Muita gente chega ao consultório já tomando alguma coisa, receitada por outro profissional ou indicada na farmácia, e a pergunta é comum.
A resposta simples é que esse tipo de remédio age no sintoma, não na causa. Ele pode diminuir a sensação de rodar e o enjoo, e não tem como recolocar um cristal no lugar. Por isso a diretriz americana recomenda contra usar esses remédios (os supressores vestibulares) como tratamento de rotina da VPPB. São três motivos. Eles não tratam o que está acontecendo. Em pessoas mais velhas podem atrapalhar o equilíbrio e aumentar o risco de queda, que é exatamente o que se quer evitar. E, o que quase ninguém sabe, eles podem mascarar o teste diagnóstico, deixando a manobra de Dix-Hallpike menos clara justamente no dia em que ela seria feita.
Isso não quer dizer que remédio nunca tenha lugar, e a própria diretriz prevê exceções, para um grupo pequeno de pacientes: sintoma muito intenso enquanto o tratamento definitivo não acontece, e uso logo antes ou logo depois da manobra. O que fazer com o que você já toma é decisão da consulta, e em algumas situações eu mantenho. O que não faz sentido é tratar a VPPB só com remédio e nunca fazer a manobra, porque aí o cristal continua onde está.
Depois da manobra: você não precisa dormir sentado
Durante anos se orientou quem fazia a manobra a dormir sentado, não deitar do lado tratado e evitar abaixar a cabeça por alguns dias.
A diretriz atual recomenda contra essas restrições, e também com força máxima: os ensaios mostraram que elas não melhoram o resultado da manobra. Então, depois do reposicionamento, a orientação é voltar à vida normal.
O que peço é cuidado nas primeiras horas, pelo motivo prático: pode sobrar uma sensação de instabilidade ou de cabeça leve por um tempo, e isso pesa ao dirigir e ao subir escada. Não é restrição de postura, é bom senso.
Quando a reabilitação vestibular entra
A reabilitação vestibular é um trabalho de exercícios conduzido por fisioterapeuta ou fonoaudiólogo com formação na área.
Ela não é o primeiro passo da VPPB, e a diretriz a trata como alternativa e não como tratamento inicial, porque o reposicionamento resolve a maior parte dos casos de forma mais direta. Mas ela tem lugar: quando sobra desequilíbrio depois que a vertigem já passou, quando há insegurança para andar, quando o paciente teve queda ou quando existe outro problema de equilíbrio junto. Nesses casos eu encaminho, e sigo acompanhando.
A VPPB pode voltar?
Pode, e é importante saber disso antes, não depois.
Os estudos acompanhados por mais tempo mostram recorrência entre 5% e 13,5% em seis meses e entre 10% e 18% em um ano, podendo chegar a 36% ao longo do tempo. Quem teve VPPB depois de um trauma na cabeça tende a repetir mais.
Isso não significa que o tratamento falhou. Significa que o cristal pode se soltar de novo, e que, se acontecer, o caminho é conhecido e curto: refazer o teste e refazer a manobra. Paciente que já passou por isso costuma reconhecer o padrão de imediato, e esse reconhecimento encurta tudo.
Para quem esta avaliação é, e o que ela não resolve
Esta consulta faz sentido para quem tem tontura que gira, dura segundos e aparece ao deitar, virar na cama ou olhar para cima, e também para quem já foi tratado de “labirintite” sem melhora e nunca passou por uma manobra diagnóstica.
Ela não é o caminho para quem tem tontura contínua de causa não esclarecida, desequilíbrio sem vertigem, desmaio ou queda sem tontura. Esses quadros têm outras causas, algumas fora da otorrinolaringologia, e começam por outra investigação. Na consulta eu vejo em qual dos dois grupos o seu caso está, e digo com clareza quando é necessária a avaliação de outro profissional, como o neurologista.
A VPPB costuma ser simples de resolver quando é identificada. A parte difícil é chegar ao diagnóstico, e ela é mais difícil do que deveria porque quase todo mundo começa pelo nome errado.
Perguntas frequentes
A VPPB é grave?
Não. O nome traz a palavra benigna justamente por isso: ela não é sinal de doença do cérebro nem evolui para uma. O que ela traz de risco real é indireto e não deve ser subestimado: uma crise em pé, numa escada ou na rua, pode causar queda, e queda em pessoa mais velha é um problema sério. É esse o motivo de tratar, e de tratar logo.
Como eu sei se é VPPB ou labirintite?
Pela duração e pelo gatilho. A VPPB dura segundos e sempre aparece ligada a um movimento da cabeça, quase sempre sem perda de audição e sem zumbido. Os outros quadros que recebem o mesmo apelido estão descritos na seção acima. A audição é o sinal que mais ajuda a separar a VPPB da labirintite e da doença de Ménière, porque perda de audição aguda não acontece numa crise de VPPB; da neurite vestibular e da enxaqueca vestibular, o que separa é a duração e o gatilho. A separação se faz na consulta, com a manobra diagnóstica, e não pelo nome que a tontura recebeu antes.
A VPPB pode passar sozinha?
Pode, e parte dos casos se resolve sem tratamento. O problema é o tempo: pode levar semanas, e são semanas de crises, de medo de deitar e de risco de queda. A diretriz americana aceita a observação com acompanhamento como opção, avisando que quem escolhe esperar costuma ficar sintomático por mais tempo do que quem faz a manobra.
O que devo evitar se tenho VPPB?
Depois da manobra, nada de restrição de postura: a diretriz recomenda contra, e dormir sentado não melhora o resultado. Antes de tratar, o cuidado é com segurança: evitar subir em escada ou banco, levantar da cama com calma, e não dirigir durante uma crise.
Como saber se a tontura é “dos cristais”?
“Cristal no ouvido” é o apelido popular da VPPB, e está mais certo do que “labirintite”, porque descreve o mecanismo. A confirmação não vem do relato nem de exame de imagem: vem da manobra de Dix-Hallpike, que provoca a vertigem e mostra o movimento dos olhos que identifica o canal acometido.
Preciso levar algum exame para a consulta?
Não precisa fazer exame antes. Se você já tem exames feitos, leve, que eu olho. O que mais ajuda é a sua observação: em que posição a tontura aparece, quanto tempo dura, de qual lado você já descobriu que não pode deitar, se há perda de audição ou zumbido, e quais remédios você está tomando.
Quanto tempo dura a consulta?
É uma consulta comum, e nela cabem o exame, o teste diagnóstico e, se o diagnóstico fechar, a manobra de tratamento. Não é preciso marcar um segundo horário para tratar.
Referências
1. Bhattacharyya N, Gubbels SP, Schwartz SR, et al. Clinical Practice Guideline: Benign Paroxysmal Positional Vertigo (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;156(3_suppl):S1-S47. DOI 10.1177/0194599816689667. PMID 28248609.
2. von Brevern M, Radtke A, Lezius F, et al. Epidemiology of benign paroxysmal positional vertigo: a population based study. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2007;78(7):710-715. DOI 10.1136/jnnp.2006.100420. PMID 17135456.
3. Hilton MP, Pinder DK. The Epley (canalith repositioning) manoeuvre for benign paroxysmal positional vertigo. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(12):CD003162. DOI 10.1002/14651858.CD003162.pub3.
4. Hanley K, O’Dowd T. Symptoms of vertigo in general practice: a prospective study of diagnosis. Br J Gen Pract. 2002;52(481):809-812.
Se a sua tontura gira, dura segundos e aparece quando você deita ou vira a cabeça, o passo que resolve não é começar um remédio, é fazer o teste que identifica o canal. No consultório do Dr. José Eduardo Marcondes, a manobra diagnóstica é feita na própria consulta e, quando o diagnóstico fecha, o tratamento é feito no mesmo dia. O atendimento é particular, nas unidades Morumbi, Itaim Bibi e Alphaville.
Dr. José Eduardo Marcondes, médico otorrinolaringologista, CRM-SP 107.711, RQE 43.840. Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.
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