“Doutor, como eu faço para parar de roncar?” Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório. Ou melhor, a pergunta mais frequente é: “Como eu faço para meu marido (ou minha esposa) parar de roncar?” Quase sempre quem marcou a consulta não foi o roncador e sim quem dorme ao lado.
A resposta começa por uma pergunta: por que esta pessoa ronca? O ronco tem várias origens possíveis, e cada origem tem um tratamento próprio. Existe um caminho de investigação e uma escala de tratamentos, do mais simples ao mais avançado. Neste artigo, explicamos como percorrer esse caminho com critério.
Primeiro de tudo: o que é o ronco?
O ronco é o som da vibração dos tecidos da garganta quando o ar passa por um espaço apertado. Funciona como uma bandeira ao vento: quando o ar circula livre por um espaço amplo, nada vibra; quando precisa passar por uma passagem estreita, ganha velocidade e faz os tecidos moles (palato, úvula, paredes da garganta) vibrarem. Essa vibração é o ronco.
Roncar de vez em quando, num resfriado ou depois de um jantar com vinho, acontece com quase todo mundo. O ronco que merece atenção é o ronco alto, frequente, que incomoda quem dorme ao lado ou que vem acompanhado de pausas na respiração.
Por que você ronca? A resposta está no fluxo do ar.
No consultório, costumamos resumir o mecanismo numa combinação simples: via aérea estreita + tecidos que relaxam demais. Os dois lados dessa combinação têm causas próprias.

O que estreita a via aérea:
- Nariz obstruído: rinite, desvio de septo, aumento dos cornetos (as “carnes esponjosas” internas do nariz), pólipos
- Palato mole alongado ou úvula volumosa
- Amígdalas aumentadas
- Base da língua volumosa, que cai para trás quando deitamos
- Excesso de peso, que deposita tecido ao redor da garganta e do pescoço
O que faz os tecidos relaxarem demais:
- O próprio sono, principalmente nas fases profundas
- Álcool à noite, que funciona como um relaxante muscular da garganta
- Alguns medicamentos sedativos
- O passar dos anos, que reduz naturalmente o tônus da musculatura
- Menopausa, período em que as alterações hormonais aumentam a chance de ronco e apneia na mulher (Young e colaboradores, 2003)
- Dormir de barriga para cima, posição em que a língua e o palato tendem a cair para trás
Cada pessoa ronca por uma combinação diferente desses fatores. É por isso que a pergunta certa não é “qual é o tratamento do ronco?”, e sim “por que esta pessoa ronca?”. Investigar antes de tratar é o que separa uma solução consistente de uma tentativa no escuro.
Quando o ronco deixa de ser só ronco: a apneia do sono
Nem todo ronco é doença. Existe o chamado ronco primário, em que a pessoa ronca mas respira bem a noite inteira. E existe o ronco que é sintoma da apneia obstrutiva do sono (AOS), condição em que a garganta chega a fechar por completo, repetidas vezes, causando pausas na respiração (apneias), queda de oxigênio e despertares que fragmentam o sono.
Isso é comum? Mais do que se imagina. O estudo EPISONO, que avaliou a população adulta da cidade de São Paulo com exame do sono, encontrou síndrome da apneia obstrutiva do sono em 32,8% dos adultos avaliados (Tufik e colaboradores, 2010). A maioria não sabia do diagnóstico.
Os sinais que aumentam a suspeita de apneia, além do ronco alto:
- Pausas na respiração observadas por quem dorme ao lado
- Acordar engasgado ou com sensação de sufocamento
- Sono que não descansa: acordar cansado mesmo dormindo horas suficientes
- Sonolência durante o dia, no trabalho ou ao dirigir
- Dor de cabeça matinal, boca seca ao acordar
- Pressão alta de difícil controle
Questionário STOP-Bang: como essas perguntas podem te ajudar
Uma ferramenta que usamos para organizar essa suspeita é o questionário STOP-Bang, publicado por Chung e colaboradores em 2008. Ele reúne 8 perguntas simples e funciona como um instrumento de triagem, não de diagnóstico. Ele dá pistas de quem merece investigar.
As 8 perguntas, em linguagem direta:
- Você ronca alto (mais alto que uma conversa, audível de outro cômodo)?
- Você se sente cansado ou sonolento durante o dia com frequência?
- Alguém já observou você parar de respirar dormindo?
- Você tem pressão alta ou trata hipertensão?
- Seu índice de massa corporal (IMC) está acima de 35?
- Você tem mais de 50 anos?
- A circunferência do seu pescoço passa de 40 cm?
- Você é do sexo masculino?
No estudo original, três ou mais respostas positivas indicam risco aumentado de apneia obstrutiva do sono (Chung e colaboradores, 2008). O questionário aponta quem deve investigar; o diagnóstico vem da consulta e do exame do sono (polissonografia), que mede quantas vezes a respiração é interrompida por hora e a queda de oxigênio no sangue. Explicamos esse caminho em detalhe na página sobre apneia do sono.
Somou três ou mais respostas positivas? Traga suas respostas para a consulta: elas ajudam a direcionar a investigação desde o primeiro dia. Agende uma avaliação e vamos descobrir de onde vem o seu ronco.
A escala de tratamentos: o que funciona em cada passo
O ronco tem tratamento, e o tratamento certo depende de onde está o estreitamento. Por isso a escada abaixo vai do mais simples ao mais avançado, e por isso o exame vem antes da escolha.
1. Medidas comportamentais
Emagrecer quando há excesso de peso, evitar álcool à noite, cuidar da rotina de sono e treinar a posição de dormir de lado. É a base da escada e entra no plano de todo paciente, sozinha no ronco leve sem obstrução anatômica, e somada aos demais degraus quando há um ponto de estreitamento a tratar ou quando a apneia é moderada ou grave.
2. Tratar o nariz
Rinite mal controlada, desvio de septo e aumento dos cornetos estreitam a entrada de ar logo na porta. Tratar o nariz, com medicação ou cirurgia conforme o caso, reduz o esforço para respirar de boca fechada e melhora a tolerância aos outros tratamentos. Entra no plano de todo roncador com obstrução nasal, e pode ser combinado com outras cirurgias na mesma programação.
3. CPAP
O aparelho de pressão positiva contínua (CPAP) mantém a via aérea aberta com um fluxo suave de ar durante o sono. É o tratamento de referência para a apneia moderada e grave: a diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono recomenda a pressão positiva para o tratamento da apneia obstrutiva do sono no adulto, com recomendação forte quando há sonolência excessiva (Patil e colaboradores, 2019). Ele age nas noites em que é usado, e por isso a adaptação pesa tanto quanto a indicação. Nariz entupido é uma das razões mais frequentes de abandono, e é aí que o otorrinolaringologista entra mesmo quando o tratamento é clínico.
4. Aparelho intraoral
O aparelho intraoral (dispositivo de avanço mandibular) projeta a mandíbula discretamente para a frente durante o sono, abrindo espaço atrás da língua. É uma boa escolha no ronco primário e na apneia leve a moderada, com acompanhamento de dentista habilitado em odontologia do sono, e depende de dentes e articulação em condições de sustentar o aparelho, o que se avalia antes de indicar.
5. Faringoplastia com sutura barbada
Cirurgia de reposicionamento do palato: reposiciona e tensiona os tecidos do palato e das paredes da garganta usando fios com microâncoras, sem remover grandes volumes de tecido. Trata o colapso retropalatal, ou seja, o que acontece atrás do palato. A indicação combina história clínica, exame otorrinolaringológico e a polissonografia; a sonoendoscopia (DISE) pode ser útil em alguns casos. Detalhes do procedimento na página sobre faringoplastia com sutura barbada.
6. Laser Fotona (protocolo NightLase)
Protocolo não cirúrgico em que a energia do laser promove contração e firmeza dos tecidos do palato, sem cortes e sem anestesia geral. É uma alternativa para quem tem ronco primário e quer uma opção sem cirurgia. No protocolo que adotamos no consultório, o tratamento é feito em um pacote inicial de sessões, no geral 4, seguido de 1 sessão de manutenção a cada 6 a 12 meses. Explicamos as indicações na página sobre o laser Fotona.
7. Cirurgia robótica transoral (TORS)
Cirurgia realizada com o uso do robô, que permite alcançar e tratar com precisão regiões profundas da garganta, que os instrumentos convencionais acessam com dificuldade.
A robótica é a via de acesso, não uma técnica única. Com ela, tratamos três territórios da via aérea: a base da língua, a parede lateral da faringe e o palato. É pela robótica, por exemplo, que realizamos a faringoplastia de expansão do esfíncter (ESP), a técnica de parede lateral que mais utilizamos. É feita em ambiente hospitalar, com pós-operatório acompanhado, e pode ser associada à faringoplastia com sutura barbada e à cirurgia do septo na mesma programação cirúrgica. Saiba mais na página sobre TORS.
Como escolhemos o degrau certo
Nenhum degrau da escada serve para todo mundo, e é isso que a consulta resolve. Três coisas definem a escolha, e as três aparecem antes de qualquer decisão:
Onde está o estreitamento. Nariz, palato, parede lateral da faringe ou base da língua. O exame do nariz e da garganta identifica o ponto, e é ele que separa quem melhora tratando o nariz de quem precisa tratar a garganta. Tratar só o nariz costuma melhorar a respiração e a adesão ao CPAP, e o ronco em si nasce com mais frequência na garganta.
A gravidade. Ronco primário e apneia leve abrem espaço para o aparelho intraoral e para o laser; na apneia moderada e grave o tratamento de referência é o CPAP, e o laser não ocupa esse lugar. Nos quadros mais pesados, as medidas comportamentais entram somadas a outro degrau, e não sozinhas.
As suas condições e as suas preferências. Cirurgia tem pós-operatório e seleção de paciente; aparelho intraoral exige condições dentárias; CPAP exige convivência com o aparelho. Levamos isso em conta com você, porque o tratamento que não se sustenta na sua rotina não trata.
Desconfie de quem prometer solução única para o ronco antes de examinar. A escada existe justamente porque a resposta certa muda de pessoa para pessoa.
A ponte entre o nariz e o sono
Aqui está um ponto que costuma passar despercebido: o nariz e o sono são um sistema só. A obstrução nasal piora o ronco, agrava a apneia e atrapalha a adesão ao CPAP, porque respirar sob pressão com o nariz entupido é como puxar ar por um canudo amassado.
Na prática do consultório, isso significa que tratar a rinite, corrigir o desvio de septo ou reduzir os cornetos age sobre o sono por duas vias: reduz a parcela nasal do ronco e permite que o CPAP ou o aparelho intraoral funcionem como devem. É comum recebermos pacientes que “não se adaptaram ao CPAP” e descobrirmos que o problema nunca foi o aparelho. Era o nariz.
Perguntas frequentes
O que causa o ronco?
A combinação de uma via aérea estreita (por nariz obstruído, palato alongado, amígdalas grandes, base da língua volumosa ou excesso de peso) com o relaxamento natural da musculatura durante o sono. Álcool, sedativos, idade e a posição de barriga para cima acentuam esse relaxamento.
Roncar é normal?
Roncar ocasionalmente, num resfriado ou após bebida alcoólica, é comum. Ronco alto e frequente, principalmente com pausas na respiração ou sonolência durante o dia, não deve ser tratado como normal: merece investigação.
Quando o ronco é preocupante?
Quando vem acompanhado de pausas na respiração observadas por outra pessoa, engasgos noturnos, sono que não descansa, sonolência diurna ou pressão alta. Três ou mais respostas positivas no questionário STOP-Bang também indicam risco aumentado de apneia e justificam avaliação (Chung e colaboradores, 2008).
Ronco tem cura?
Depende da causa. Quando existe um fator anatômico claro e tratável, o ronco pode desaparecer ou reduzir de forma importante. Em outros casos, o objetivo é o controle, como acontece com a pressão alta: o tratamento é continuado, não pontual. A resposta séria começa pela investigação da causa.
Cirurgia para ronco funciona?
Funciona quando a indicação está certa. As técnicas atuais (faringoplastia com sutura barbada, TORS, cirurgias nasais) tratam o local exato do colapso, identificado por exame. É a investigação que separa a cirurgia que resolve da cirurgia que decepciona, e é por isso que ela vem antes.
Dormir de lado resolve o ronco?
Ajuda em parte dos casos, porque de lado a língua e o palato caem menos para trás. Para quem ronca em qualquer posição, ou tem apneia, a posição sozinha não basta e a causa precisa ser investigada.
Referências
- Chung F, Yegneswaran B, Liao P, e colaboradores. STOP Questionnaire: a tool to screen patients for obstructive sleep apnea. Anesthesiology. 2008;108(5):812-821.
- Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LRA. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study (EPISONO). Sleep Medicine. 2010;11(5):441-446.
- Patil SP, Ayappa IA, Caples SM, e colaboradores. Treatment of adult obstructive sleep apnea with positive airway pressure: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine. 2019;15(2):335-343.
- Young T, Finn L, Austin D, Peterson A. Menopausal status and sleep-disordered breathing in the Wisconsin Sleep Cohort Study. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine. 2003;167(9):1181-1185.
Se o ronco faz parte das suas noites, ou das noites de quem dorme ao seu lado, o primeiro passo é descobrir de onde ele vem. Agende uma avaliação nas unidades Morumbi, Itaim Bibi ou Alphaville, e vamos examinar o seu nariz e a sua garganta para encontrar o degrau certo para o seu caso.
Dr. José Eduardo Marcondes, médico otorrinolaringologista (CRM-SP 107.711 | RQE 43.840). Este conteúdo não substitui a consulta médica.
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Sobre o autor
Dr. José Eduardo Marcondes
Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840
Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Focado no tratamento do ronco e da apneia do sono, obstrução nasal, sinusite crônica, adenoides e amígdalas, em adultos e crianças. Membro da ABORL-CCF e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz.
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