Categoria: Ronco e apneia do sono

Artigos sobre ronco, apneia obstrutiva do sono, diagnóstico e as opções de tratamento — do CPAP à cirurgia robótica.

  • Como parar de roncar? O que funciona de verdade, segundo a evidência

    Como parar de roncar? O que funciona de verdade, segundo a evidência

    “Doutor, como eu faço para parar de roncar?” Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório. Ou melhor, a pergunta mais frequente é: “Como eu faço para meu marido (ou minha esposa) parar de roncar?” Quase sempre quem marcou a consulta não foi o roncador e sim quem dorme ao lado.

    A resposta começa por uma pergunta: por que esta pessoa ronca? O ronco tem várias origens possíveis, e cada origem tem um tratamento próprio. Existe um caminho de investigação e uma escala de tratamentos, do mais simples ao mais avançado. Neste artigo, explicamos como percorrer esse caminho com critério.

    Primeiro de tudo: o que é o ronco?

    O ronco é o som da vibração dos tecidos da garganta quando o ar passa por um espaço apertado. Funciona como uma bandeira ao vento: quando o ar circula livre por um espaço amplo, nada vibra; quando precisa passar por uma passagem estreita, ganha velocidade e faz os tecidos moles (palato, úvula, paredes da garganta) vibrarem. Essa vibração é o ronco.

    Roncar de vez em quando, num resfriado ou depois de um jantar com vinho, acontece com quase todo mundo. O ronco que merece atenção é o ronco alto, frequente, que incomoda quem dorme ao lado ou que vem acompanhado de pausas na respiração.

    Por que você ronca? A resposta está no fluxo do ar.

    No consultório, costumamos resumir o mecanismo numa combinação simples: via aérea estreita + tecidos que relaxam demais. Os dois lados dessa combinação têm causas próprias.

    Ilustração anatômica em corte sagital mostrando os três pontos onde o ar encontra estreitamento na via aérea: nariz, palato mole e úvula, e base da língua.

    O que estreita a via aérea:

    • Nariz obstruído: rinite, desvio de septo, aumento dos cornetos (as “carnes esponjosas” internas do nariz), pólipos
    • Palato mole alongado ou úvula volumosa
    • Amígdalas aumentadas
    • Base da língua volumosa, que cai para trás quando deitamos
    • Excesso de peso, que deposita tecido ao redor da garganta e do pescoço

    O que faz os tecidos relaxarem demais:

    • O próprio sono, principalmente nas fases profundas
    • Álcool à noite, que funciona como um relaxante muscular da garganta
    • Alguns medicamentos sedativos
    • O passar dos anos, que reduz naturalmente o tônus da musculatura
    • Menopausa, período em que as alterações hormonais aumentam a chance de ronco e apneia na mulher (Young e colaboradores, 2003)
    • Dormir de barriga para cima, posição em que a língua e o palato tendem a cair para trás

    Cada pessoa ronca por uma combinação diferente desses fatores. É por isso que a pergunta certa não é “qual é o tratamento do ronco?”, e sim “por que esta pessoa ronca?”. Investigar antes de tratar é o que separa uma solução consistente de uma tentativa no escuro.

    Quando o ronco deixa de ser só ronco: a apneia do sono

    Nem todo ronco é doença. Existe o chamado ronco primário, em que a pessoa ronca mas respira bem a noite inteira. E existe o ronco que é sintoma da apneia obstrutiva do sono (AOS), condição em que a garganta chega a fechar por completo, repetidas vezes, causando pausas na respiração (apneias), queda de oxigênio e despertares que fragmentam o sono.

    Isso é comum? Mais do que se imagina. O estudo EPISONO, que avaliou a população adulta da cidade de São Paulo com exame do sono, encontrou síndrome da apneia obstrutiva do sono em 32,8% dos adultos avaliados (Tufik e colaboradores, 2010). A maioria não sabia do diagnóstico.

    Os sinais que aumentam a suspeita de apneia, além do ronco alto:

    • Pausas na respiração observadas por quem dorme ao lado
    • Acordar engasgado ou com sensação de sufocamento
    • Sono que não descansa: acordar cansado mesmo dormindo horas suficientes
    • Sonolência durante o dia, no trabalho ou ao dirigir
    • Dor de cabeça matinal, boca seca ao acordar
    • Pressão alta de difícil controle

    Questionário STOP-Bang: como essas perguntas podem te ajudar

    Uma ferramenta que usamos para organizar essa suspeita é o questionário STOP-Bang, publicado por Chung e colaboradores em 2008. Ele reúne 8 perguntas simples e funciona como um instrumento de triagem, não de diagnóstico. Ele dá pistas de quem merece investigar.

    As 8 perguntas, em linguagem direta:

    1. Você ronca alto (mais alto que uma conversa, audível de outro cômodo)?
    2. Você se sente cansado ou sonolento durante o dia com frequência?
    3. Alguém já observou você parar de respirar dormindo?
    4. Você tem pressão alta ou trata hipertensão?
    5. Seu índice de massa corporal (IMC) está acima de 35?
    6. Você tem mais de 50 anos?
    7. A circunferência do seu pescoço passa de 40 cm?
    8. Você é do sexo masculino?

    No estudo original, três ou mais respostas positivas indicam risco aumentado de apneia obstrutiva do sono (Chung e colaboradores, 2008). O questionário aponta quem deve investigar; o diagnóstico vem da consulta e do exame do sono (polissonografia), que mede quantas vezes a respiração é interrompida por hora e a queda de oxigênio no sangue. Explicamos esse caminho em detalhe na página sobre apneia do sono.

    Somou três ou mais respostas positivas? Traga suas respostas para a consulta: elas ajudam a direcionar a investigação desde o primeiro dia. Agende uma avaliação e vamos descobrir de onde vem o seu ronco.

    A escala de tratamentos: o que funciona em cada passo

    O ronco tem tratamento, e o tratamento certo depende de onde está o estreitamento. Por isso a escada abaixo vai do mais simples ao mais avançado, e por isso o exame vem antes da escolha.

    1. Medidas comportamentais

    Emagrecer quando há excesso de peso, evitar álcool à noite, cuidar da rotina de sono e treinar a posição de dormir de lado. É a base da escada e entra no plano de todo paciente, sozinha no ronco leve sem obstrução anatômica, e somada aos demais degraus quando há um ponto de estreitamento a tratar ou quando a apneia é moderada ou grave.

    2. Tratar o nariz

    Rinite mal controlada, desvio de septo e aumento dos cornetos estreitam a entrada de ar logo na porta. Tratar o nariz, com medicação ou cirurgia conforme o caso, reduz o esforço para respirar de boca fechada e melhora a tolerância aos outros tratamentos. Entra no plano de todo roncador com obstrução nasal, e pode ser combinado com outras cirurgias na mesma programação.

    3. CPAP

    O aparelho de pressão positiva contínua (CPAP) mantém a via aérea aberta com um fluxo suave de ar durante o sono. É o tratamento de referência para a apneia moderada e grave: a diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono recomenda a pressão positiva para o tratamento da apneia obstrutiva do sono no adulto, com recomendação forte quando há sonolência excessiva (Patil e colaboradores, 2019). Ele age nas noites em que é usado, e por isso a adaptação pesa tanto quanto a indicação. Nariz entupido é uma das razões mais frequentes de abandono, e é aí que o otorrinolaringologista entra mesmo quando o tratamento é clínico.

    4. Aparelho intraoral

    O aparelho intraoral (dispositivo de avanço mandibular) projeta a mandíbula discretamente para a frente durante o sono, abrindo espaço atrás da língua. É uma boa escolha no ronco primário e na apneia leve a moderada, com acompanhamento de dentista habilitado em odontologia do sono, e depende de dentes e articulação em condições de sustentar o aparelho, o que se avalia antes de indicar.

    5. Faringoplastia com sutura barbada

    Cirurgia de reposicionamento do palato: reposiciona e tensiona os tecidos do palato e das paredes da garganta usando fios com microâncoras, sem remover grandes volumes de tecido. Trata o colapso retropalatal, ou seja, o que acontece atrás do palato. A indicação combina história clínica, exame otorrinolaringológico e a polissonografia; a sonoendoscopia (DISE) pode ser útil em alguns casos. Detalhes do procedimento na página sobre faringoplastia com sutura barbada.

    6. Laser Fotona (protocolo NightLase)

    Protocolo não cirúrgico em que a energia do laser promove contração e firmeza dos tecidos do palato, sem cortes e sem anestesia geral. É uma alternativa para quem tem ronco primário e quer uma opção sem cirurgia. No protocolo que adotamos no consultório, o tratamento é feito em um pacote inicial de sessões, no geral 4, seguido de 1 sessão de manutenção a cada 6 a 12 meses. Explicamos as indicações na página sobre o laser Fotona.

    7. Cirurgia robótica transoral (TORS)

    Cirurgia realizada com o uso do robô, que permite alcançar e tratar com precisão regiões profundas da garganta, que os instrumentos convencionais acessam com dificuldade.

    A robótica é a via de acesso, não uma técnica única. Com ela, tratamos três territórios da via aérea: a base da língua, a parede lateral da faringe e o palato. É pela robótica, por exemplo, que realizamos a faringoplastia de expansão do esfíncter (ESP), a técnica de parede lateral que mais utilizamos. É feita em ambiente hospitalar, com pós-operatório acompanhado, e pode ser associada à faringoplastia com sutura barbada e à cirurgia do septo na mesma programação cirúrgica. Saiba mais na página sobre TORS.

    Como escolhemos o degrau certo

    Nenhum degrau da escada serve para todo mundo, e é isso que a consulta resolve. Três coisas definem a escolha, e as três aparecem antes de qualquer decisão:

    Onde está o estreitamento. Nariz, palato, parede lateral da faringe ou base da língua. O exame do nariz e da garganta identifica o ponto, e é ele que separa quem melhora tratando o nariz de quem precisa tratar a garganta. Tratar só o nariz costuma melhorar a respiração e a adesão ao CPAP, e o ronco em si nasce com mais frequência na garganta.

    A gravidade. Ronco primário e apneia leve abrem espaço para o aparelho intraoral e para o laser; na apneia moderada e grave o tratamento de referência é o CPAP, e o laser não ocupa esse lugar. Nos quadros mais pesados, as medidas comportamentais entram somadas a outro degrau, e não sozinhas.

    As suas condições e as suas preferências. Cirurgia tem pós-operatório e seleção de paciente; aparelho intraoral exige condições dentárias; CPAP exige convivência com o aparelho. Levamos isso em conta com você, porque o tratamento que não se sustenta na sua rotina não trata.

    Desconfie de quem prometer solução única para o ronco antes de examinar. A escada existe justamente porque a resposta certa muda de pessoa para pessoa.

    A ponte entre o nariz e o sono

    Aqui está um ponto que costuma passar despercebido: o nariz e o sono são um sistema só. A obstrução nasal piora o ronco, agrava a apneia e atrapalha a adesão ao CPAP, porque respirar sob pressão com o nariz entupido é como puxar ar por um canudo amassado.

    Na prática do consultório, isso significa que tratar a rinite, corrigir o desvio de septo ou reduzir os cornetos age sobre o sono por duas vias: reduz a parcela nasal do ronco e permite que o CPAP ou o aparelho intraoral funcionem como devem. É comum recebermos pacientes que “não se adaptaram ao CPAP” e descobrirmos que o problema nunca foi o aparelho. Era o nariz.

    Perguntas frequentes

    O que causa o ronco?

    A combinação de uma via aérea estreita (por nariz obstruído, palato alongado, amígdalas grandes, base da língua volumosa ou excesso de peso) com o relaxamento natural da musculatura durante o sono. Álcool, sedativos, idade e a posição de barriga para cima acentuam esse relaxamento.

    Roncar é normal?

    Roncar ocasionalmente, num resfriado ou após bebida alcoólica, é comum. Ronco alto e frequente, principalmente com pausas na respiração ou sonolência durante o dia, não deve ser tratado como normal: merece investigação.

    Quando o ronco é preocupante?

    Quando vem acompanhado de pausas na respiração observadas por outra pessoa, engasgos noturnos, sono que não descansa, sonolência diurna ou pressão alta. Três ou mais respostas positivas no questionário STOP-Bang também indicam risco aumentado de apneia e justificam avaliação (Chung e colaboradores, 2008).

    Ronco tem cura?

    Depende da causa. Quando existe um fator anatômico claro e tratável, o ronco pode desaparecer ou reduzir de forma importante. Em outros casos, o objetivo é o controle, como acontece com a pressão alta: o tratamento é continuado, não pontual. A resposta séria começa pela investigação da causa.

    Cirurgia para ronco funciona?

    Funciona quando a indicação está certa. As técnicas atuais (faringoplastia com sutura barbada, TORS, cirurgias nasais) tratam o local exato do colapso, identificado por exame. É a investigação que separa a cirurgia que resolve da cirurgia que decepciona, e é por isso que ela vem antes.

    Dormir de lado resolve o ronco?

    Ajuda em parte dos casos, porque de lado a língua e o palato caem menos para trás. Para quem ronca em qualquer posição, ou tem apneia, a posição sozinha não basta e a causa precisa ser investigada.

    Referências

    1. Chung F, Yegneswaran B, Liao P, e colaboradores. STOP Questionnaire: a tool to screen patients for obstructive sleep apnea. Anesthesiology. 2008;108(5):812-821.
    2. Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LRA. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study (EPISONO). Sleep Medicine. 2010;11(5):441-446.
    3. Patil SP, Ayappa IA, Caples SM, e colaboradores. Treatment of adult obstructive sleep apnea with positive airway pressure: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine. 2019;15(2):335-343.
    4. Young T, Finn L, Austin D, Peterson A. Menopausal status and sleep-disordered breathing in the Wisconsin Sleep Cohort Study. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine. 2003;167(9):1181-1185.

    Se o ronco faz parte das suas noites, ou das noites de quem dorme ao seu lado, o primeiro passo é descobrir de onde ele vem. Agende uma avaliação nas unidades Morumbi, Itaim Bibi ou Alphaville, e vamos examinar o seu nariz e a sua garganta para encontrar o degrau certo para o seu caso.

    Dr. José Eduardo Marcondes, médico otorrinolaringologista (CRM-SP 107.711 | RQE 43.840). Este conteúdo não substitui a consulta médica.

    Sobre o autor

    Dr. José Eduardo Marcondes

    Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840

    Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Focado no tratamento do ronco e da apneia do sono, obstrução nasal, sinusite crônica, adenoides e amígdalas, em adultos e crianças. Membro da ABORL-CCF e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz.

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  • A apneia do sono tem cura? Entenda a gravidade, os riscos e os tratamentos

    A apneia do sono tem cura? Entenda a gravidade, os riscos e os tratamentos

    “Doutor, a apneia do sono tem cura?” Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório, e a resposta é: depende da causa e da gravidade. A apneia do sono sempre tem tratamento eficaz e, em situações específicas, tem cura de verdade. Em outros casos, o objetivo é o controle completo do problema, o que já transforma o sono, a energia e a saúde de quem convive com ela.

    Neste texto, explicamos os tipos de apneia, o que leva uma pessoa a desenvolver o problema, como saber se você tem, quando o quadro é considerado grave e, principalmente, em quais situações é possível falar em cura e em quais o caminho é o controle.

    Pessoa dormindo tranquila após tratamento da apneia do sono

    O que é a apneia do sono

    Durante o sono, a musculatura da garganta relaxa. Em quem tem a via aérea mais estreita ou os tecidos mais flácidos, esse relaxamento pode fechar a passagem de ar por alguns segundos, várias vezes por noite. Cada pausa obriga o cérebro a um microdespertar para retomar a respiração. O resultado é um sono fragmentado, oxigênio oscilando no sangue e um corpo que nunca descansa de verdade.

    Essa é a apneia obstrutiva do sono, a forma mais comum da doença. Ela é bem mais frequente do que se imagina: no estudo EPISONO, feito na cidade de São Paulo, cerca de um terço dos adultos (32,8%) apresentava apneia do sono em algum grau. Se quiser entender em detalhe o que as pausas fazem com o organismo, vale ler o artigo sobre a fisiologia da apneia do sono.

    Quais são os três tipos de apneia?

    Existem três tipos de apneia do sono, que se diferenciam pelo mecanismo que interrompe a respiração durante a noite:

    Tipo O que acontece Quão comum
    Apneia obstrutiva A via aérea se fecha na garganta, mas o corpo continua tentando respirar. É o foco deste artigo. O tipo mais comum, de longe.
    Apneia central O cérebro deixa de enviar, por alguns instantes, a ordem de respirar; a garganta não é o problema. Costuma se associar a doenças cardíacas e neurológicas. Mais rara.
    Apneia mista Combina os dois mecanismos no mesmo evento: começa como central e termina como obstrutiva. Menos frequente.

    Diferenciar os tipos importa porque o tratamento muda. A polissonografia, o exame do sono, é quem faz essa distinção.

    O que leva a pessoa a ter apneia do sono?

    Na apneia obstrutiva, o problema nasce de uma conta simples: uma via aérea estreita somada a tecidos que relaxam demais durante o sono. Vários fatores entram nessa conta:

    • Excesso de peso. É o fator de risco mais importante e um dos mais reversíveis. A gordura no pescoço, na língua e no abdome estreita e sobrecarrega a via aérea. Explicamos esse mecanismo em detalhe no artigo sobre apneia do sono e obesidade.
    • Anatomia da face e da garganta. Queixo retraído, amígdalas grandes, língua volumosa e palato baixo reduzem o espaço por onde o ar passa. Por isso pessoas magras também podem ter apneia.
    • Obstrução nasal. Desvio de septo, cornetos aumentados e rinite dificultam a respiração pelo nariz e empurram a pessoa para a respiração bucal, que desestabiliza a via aérea durante o sono.
    • Idade e sexo. A apneia fica mais comum com a idade, pela perda natural do tônus muscular. Homens são mais afetados, mas a diferença diminui após a menopausa, como mostramos no artigo sobre apneia do sono em homens e mulheres.
    • Álcool, cigarro e sedativos. Relaxam ainda mais a musculatura da garganta ou inflamam a via aérea.
    • Fatores hormonais. Hipotireoidismo e outras alterações hormonais também podem contribuir.

    O que piora a apneia?

    Mesmo em quem já tem o diagnóstico, alguns hábitos agravam as pausas respiratórias: ganhar peso, consumir álcool à noite, fumar, usar remédios para dormir por conta própria, dormir de barriga para cima e deixar o nariz obstruído sem tratamento. A boa notícia é que todos esses pontos podem ser trabalhados, e cada um deles melhora o resultado de qualquer tratamento.

    Como sei se tenho apneia do sono?

    Os sinais mais comuns aparecem em dois momentos. Durante a noite: ronco alto e frequente, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, engasgos ou sensação de sufocamento, sono agitado e idas repetidas ao banheiro. Durante o dia: acordar cansado mesmo depois de horas na cama, dor de cabeça pela manhã, sonolência, irritabilidade e queda de memória e concentração.

    Na presença desses sinais, o caminho é uma avaliação com o otorrinolaringologista, que examina o nariz e a garganta (em geral com a nasofibrolaringoscopia) para identificar onde está a obstrução. A confirmação do diagnóstico é feita pela polissonografia, o exame do sono, que pode ser realizado no laboratório ou, em casos selecionados, em casa.

    Polissonografia, o exame do sono que confirma o diagnóstico de apneia

    Quando a apneia é grave?

    A gravidade é medida pelo IAH, o índice de apneia e hipopneia, que conta as pausas na respiração por hora de sono: até 5 é considerado normal, de 5 a 15 é apneia leve, de 15 a 30 é moderada e acima de 30 é grave.

    O número, porém, não é tudo. A queda do oxigênio durante os eventos, o grau de sonolência diurna, a profissão (pense em quem dirige ou opera máquinas) e a presença de doenças como hipertensão, diabetes e arritmias também pesam na decisão de como e com que urgência tratar.

    Afinal, a apneia do sono tem cura?

    Agora a resposta completa. A apneia do sono tem cura em situações específicas, quando existe uma causa bem definida que pode ser corrigida:

    • Em crianças, a causa mais comum é o aumento das amígdalas e da adenoide, e a cirurgia resolve a grande maioria dos casos.
    • Em adultos com apneia leve ligada ao excesso de peso, emagrecer de forma consistente pode normalizar o exame do sono.
    • Em casos selecionados, a cirurgia do ronco e da apneia corrige os pontos de obstrução da via aérea (nariz, palato, paredes da faringe e base da língua) e pode reduzir o IAH a níveis normais. O resultado depende muito da seleção do paciente e do local da obstrução, por isso a avaliação detalhada é tão importante.

    Na maioria dos quadros moderados e graves, o termo que usamos não é cura, e sim controle. O CPAP, por exemplo, elimina as pausas respiratórias enquanto é usado, com excelente resultado sobre os sintomas e a qualidade de vida. É parecido com o que acontece na hipertensão: o tratamento não faz a predisposição desaparecer, mas devolve a saúde e afasta as complicações. E controle bem feito, na prática, significa dormir e viver como quem não tem a doença.

    Desconfie de qualquer promessa de cura garantida da apneia. Medicina séria trabalha com avaliação individual, e o tratamento certo para uma pessoa pode ser inadequado para outra.

    Quais são os tratamentos para a apneia do sono?

    O plano é sempre individual e, muitas vezes, combina mais de uma frente:

    • CPAP. Aparelho que mantém a via aérea aberta com pressão de ar. É o tratamento de escolha na apneia grave e muito eficaz quando bem tolerado.
    • Aparelho intraoral. Avança levemente a mandíbula e amplia o espaço na garganta. Útil em casos leves a moderados e para quem não se adapta ao CPAP.
    • Tratar o nariz. Corrigir desvio de septo, cornetos aumentados e rinite melhora a respiração, o ronco e a adaptação ao CPAP.
    • Terapia fonoaudiológica. Exercícios que fortalecem a musculatura da língua, do palato e da faringe.
    • Laser Fotona. O protocolo NightLase, um tratamento a laser sem cortes, tonifica os tecidos da garganta em casos selecionados de ronco e apneia leve a moderada.
    • Cirurgia. Dos procedimentos nasais à faringoplastia e à cirurgia robótica da base da língua (TORS), indicada conforme o ponto de obstrução identificado na avaliação.
    • Controle do peso. Peça central em quem tem excesso de peso, com dieta, atividade física e, em casos selecionados, as canetas emagrecedoras, que reduziram a gravidade da apneia em estudos recentes.

    Perguntas frequentes

    Quem tem apneia pode infartar?

    O risco é maior, sim. A apneia não tratada sobrecarrega o coração noite após noite, favorece hipertensão e arritmias e, nos quadros graves, estudos de longo prazo mostraram cerca de três vezes mais eventos cardiovasculares em quem não tratou. Por isso a apneia deve ser investigada e tratada cedo, junto com os demais fatores de risco do coração.

    Apneia causa AVC?

    A apneia do sono é um fator de risco independente para o AVC. Um estudo clássico do New England Journal of Medicine mostrou cerca de duas vezes mais risco de AVC ou morte em quem tinha apneia obstrutiva. As quedas repetidas de oxigênio e os picos de pressão durante a noite explicam boa parte desse risco.

    Quais são as sequelas da apneia do sono?

    Sem tratamento, a apneia se associa a hipertensão, arritmias como a fibrilação atrial, infarto, AVC, resistência à insulina e diabetes, queda de memória e concentração, sonolência com risco de acidentes, irritabilidade, depressão e queda da libido. A maior parte dessas consequências melhora ou deixa de progredir quando a apneia é tratada.

    Como fica a pessoa com apneia do sono?

    O retrato típico é de alguém que dorme, mas não descansa: acorda cansado, tem dor de cabeça pela manhã, sente sono ao longo do dia, fica irritado com facilidade e nota a memória e a concentração piores. À noite, ronca alto e faz pausas na respiração que costumam assustar quem dorme ao lado. Muitos só percebem o quanto viviam mal depois que começam o tratamento.

    Qual é o medicamento para apneia do sono?

    Não existe remédio que mantenha a via aérea aberta durante o sono. A novidade recente são as canetas emagrecedoras: em quem tem apneia associada à obesidade, a tirzepatida reduziu a gravidade da apneia em um grande estudo, por meio da perda de peso. Elas atuam sobre a causa em casos selecionados, com prescrição médica, e não substituem a avaliação da via aérea nem os demais tratamentos.

    Quem tem apneia do sono pode tomar remédio para dormir?

    Com muito cuidado, e nunca por conta própria. Vários indutores do sono e calmantes relaxam ainda mais a musculatura da garganta e podem aumentar o número e a duração das pausas respiratórias. Se você ronca ou suspeita de apneia e dorme mal, o caminho é investigar e tratar a apneia primeiro. Quando algum medicamento for necessário, ele deve ser escolhido por um médico que conheça o seu exame do sono.

    O primeiro passo é investigar

    Se você ronca todas as noites, acorda cansado ou já flagrou pausas na respiração de alguém da família, não espere o problema cobrar um preço maior. A apneia do sono tem tratamento eficaz para todos os graus, e cura em situações específicas. Quanto antes se descobre onde está a obstrução, maiores as chances de um resultado completo.

    O Dr. José Eduardo Marcondes é MÉDICO otorrinolaringologista (CRM-SP 107.711 | RQE 43.840), com atuação em cirurgia nasal e no tratamento do ronco e da apneia do sono, atendendo no Morumbi e no Itaim (São Paulo) e em Alphaville (Barueri). Se fizer sentido para você, agende uma avaliação para investigarmos o seu sono e conversarmos sobre o melhor caminho para o seu caso.

    Referências

    1. Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LR. Obstructive sleep apnea syndrome in the São Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Medicine. 2010;11(5):441-446. doi:10.1016/j.sleep.2009.10.005.
    2. Marin JM, Carrizo SJ, Vicente E, Agusti AG. Long-term cardiovascular outcomes in men with obstructive sleep apnoea-hypopnoea with or without treatment with continuous positive airway pressure: an observational study. Lancet. 2005;365(9464):1046-1053. doi:10.1016/S0140-6736(05)71141-7.
    3. Yaggi HK, Concato J, Kernan WN, Lichtman JH, Brass LM, Mohsenin V. Obstructive sleep apnea as a risk factor for stroke and death. New England Journal of Medicine. 2005;353(19):2034-2041. doi:10.1056/NEJMoa043104.
    4. Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al. Tirzepatide for the treatment of obstructive sleep apnea and obesity (SURMOUNT-OSA). New England Journal of Medicine. 2024;391(13):1193-1205. doi:10.1056/NEJMoa2404881.
    5. McEvoy RD, Antic NA, Heeley E, et al. CPAP for prevention of cardiovascular events in obstructive sleep apnea (SAVE). New England Journal of Medicine. 2016;375(10):919-931. doi:10.1056/NEJMoa1606599.

    Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.

    Sobre o autor

    Dr. José Eduardo Marcondes

    Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840

    Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Focado no tratamento do ronco e da apneia do sono, obstrução nasal, sinusite crônica, adenoides e amígdalas, em adultos e crianças. Membro da ABORL-CCF e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz.

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  • Apneia do sono e obesidade: o círculo vicioso entre o peso e o sono (e o papel das canetas emagrecedoras)

    Apneia do sono e obesidade: o círculo vicioso entre o peso e o sono (e o papel das canetas emagrecedoras)

    Apneia do sono e excesso de peso costumam andar juntos, e isso não é coincidência. As duas condições se alimentam uma da outra: o peso a mais favorece a apneia, e a apneia, por sua vez, dificulta o emagrecimento. É um verdadeiro círculo vicioso, e entendê-lo ajuda a explicar por que tratar apenas um dos lados, muitas vezes, não resolve.

    Neste texto sobre apneia do sono e obesidade, o objetivo é educativo: mostrar como a obesidade piora a apneia, como a apneia piora a obesidade e por que romper esse ciclo exige olhar para os dois problemas ao mesmo tempo. No final, falamos sobre os tratamentos disponíveis e sobre por que as chamadas canetas emagrecedoras se tornaram uma ferramenta importante contra as duas doenças.

    Ilustração em corte de um homem obeso deitado mostrando como a gordura no pescoço, na língua e no abdome estreita a via aérea e comprime os pulmões na apneia do sono

    O que é a apneia obstrutiva do sono

    Durante o sono, a musculatura da garganta relaxa. Em quem tem a via aérea mais estreita ou os tecidos mais flácidos, esse relaxamento pode fechar temporariamente a passagem de ar, interrompendo a respiração por alguns segundos, várias vezes por noite. Cada pausa faz o cérebro reagir com um microdespertar para voltar a respirar. O sono se fragmenta, o corpo não descansa de verdade e o oxigênio no sangue oscila ao longo da noite.

    Essa é a apneia obstrutiva do sono. Entre os fatores que favorecem o seu aparecimento, o excesso de peso é um dos mais importantes, e também um dos mais reversíveis.

    Enfoque 1: como a obesidade piora a apneia

    O excesso de peso age contra a respiração noturna por vários caminhos ao mesmo tempo.

    • Gordura ao redor da garganta. A gordura acumulada no pescoço e nas paredes da faringe estreita o espaço por onde o ar passa. Uma via aérea mais apertada colapsa com mais facilidade quando a musculatura relaxa no sono.
    • Gordura na base da língua. Estudos com ressonância mostram que quem tem obesidade tende a acumular gordura na própria língua, que fica maior e mais pesada e recua sobre a garganta ao deitar.
    • Gordura no abdome. A gordura abdominal empurra o diafragma para cima e reduz o volume de ar que os pulmões conseguem manter, sobretudo na posição deitada. Pulmões menos cheios “puxam” menos a via aérea de dentro, o que a deixa mais propensa a fechar.
    • Inflamação e retenção de líquido. O tecido adiposo em excesso mantém o corpo num estado de inflamação de baixo grau e favorece o acúmulo de líquido, que à noite pode migrar para o pescoço e agravar a obstrução.

    Não por acaso, a relação entre peso e apneia é bem medida. Um estudo populacional de referência mostrou que uma variação de cerca de 10% no peso corporal se associa a mudanças expressivas na gravidade da apneia: ganhar peso piora, e perder peso melhora o número de pausas respiratórias por hora de sono.

    Enfoque 2: como a apneia piora a obesidade

    O que muita gente não imagina é que a estrada tem mão dupla. A apneia não tratada também empurra o organismo na direção do ganho de peso, e dificulta emagrecer.

    • Sono fragmentado desregula a fome. A privação e a fragmentação do sono alteram dois hormônios que controlam o apetite: aumentam a grelina (que dá fome) e reduzem a leptina (que dá saciedade). O resultado é mais fome, mais vontade de alimentos calóricos e mais dificuldade de parar de comer.
    • Resistência à insulina. Noites mal dormidas e as quedas repetidas de oxigênio pioram a forma como o corpo lida com o açúcar, favorecendo a resistência à insulina, o acúmulo de gordura e o risco de diabetes tipo 2.
    • Cansaço que reduz o gasto de energia. Quem dorme mal acorda esgotado, com menos disposição para se exercitar e se mover ao longo do dia. Menos atividade significa menos calorias gastas.
    • Estresse hormonal. O sono ruim e as oscilações de oxigênio ativam o sistema de estresse e elevam o cortisol, hormônio que também favorece o acúmulo de gordura, principalmente na região abdominal.

    Ou seja: a apneia cria exatamente o ambiente hormonal e comportamental que facilita engordar.

    O círculo vicioso

    Junte os dois lados e o problema fica claro. O excesso de peso estreita e sobrecarrega a via aérea, o que gera ou agrava a apneia. A apneia fragmenta o sono, desregula os hormônios da fome, aumenta a resistência à insulina e rouba a energia para se exercitar, o que favorece ainda mais o ganho de peso. Mais peso, mais apneia. Mais apneia, mais peso.

    É por isso que muitas pessoas se sentem “presas”: fazem dieta, mas o sono ruim sabota o esforço; ou tratam só o sono, mas o peso mantém a via aérea comprometida. Romper esse ciclo costuma exigir agir nas duas frentes ao mesmo tempo, e é aí que o tratamento moderno tem avançado bastante.

    Como se trata a apneia hoje

    Não existe um tratamento único que sirva para todos. A conduta depende da gravidade da apneia, da anatomia da via aérea e dos fatores associados de cada pessoa. As principais opções são:

    • CPAP. O aparelho que mantém a via aérea aberta com um fluxo de ar durante a noite. Continua sendo o tratamento de escolha na apneia grave.
    • Tratar o nariz. Corrigir obstruções como desvio de septo, cornetos aumentados ou rinite melhora a respiração e a adaptação a outros tratamentos.
    • Aparelho intraoral. Dispositivo que avança levemente a mandíbula e amplia o espaço na garganta, útil em casos leves a moderados.
    • Laser Fotona. O protocolo NightLase, um tratamento a laser sem cortes, pode tonificar os tecidos da garganta em casos selecionados de ronco e apneia leve a moderada.
    • Cirurgia. Indicada em situações específicas, conforme o ponto de obstrução identificado na avaliação.
    • Controle do peso. Como vimos, é uma peça central. Emagrecer reduz a gravidade da apneia e, em parte dos casos, chega a resolver quadros leves.

    O peso, aliás, sempre esteve presente nessa lista, mas por muito tempo foi também a parte mais difícil de tratar. Foi justamente aí que surgiu uma novidade importante.

    As canetas emagrecedoras: uma arma contra as duas doenças

    As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 (como a semaglutida) e, mais recentemente, agonistas duplos GLP-1/GIP (como a tirzepatida). Elas agem no cérebro e no aparelho digestivo aumentando a saciedade e reduzindo a fome, o que leva a uma perda de peso significativa e sustentada.

    O ponto interessante para quem tem apneia é que essas medicações atacam justamente a raiz do círculo vicioso: o excesso de peso. E há evidência direta disso. Em 2024, um grande ensaio clínico chamado SURMOUNT-OSA, publicado no New England Journal of Medicine, avaliou a tirzepatida em adultos com obesidade e apneia obstrutiva do sono de grau moderado a grave. O resultado foi uma redução importante do número de pausas respiratórias por hora de sono (o índice que mede a gravidade da apneia), acompanhada da perda de peso, tanto em quem usava CPAP quanto em quem não usava.

    Na prática, isso significa que tratar o peso com esses medicamentos pode melhorar a própria apneia, ao mesmo tempo em que reduz riscos ligados à obesidade, como diabetes e doença cardiovascular. Uma única frente de tratamento atuando sobre as duas doenças de uma vez.

    Duas ressalvas importantes, porém. Primeiro, as canetas não são milagre nem substituem, sozinhas, os demais tratamentos: em muitos casos elas se somam ao CPAP e às outras medidas, e não os eliminam. Segundo, são medicamentos com indicações, contraindicações e efeitos colaterais próprios, cuja prescrição e acompanhamento cabem ao médico responsável pelo tratamento do peso, em geral o endocrinologista ou o nutrólogo.

    O melhor caminho é o cuidado em equipe. O otorrinolaringologista avalia e trata a via aérea e a apneia; o especialista em obesidade conduz o emagrecimento, com ou sem medicação; e os dois trabalham juntos para romper o círculo vicioso. Cada peça no seu lugar, com um objetivo comum: devolver ao paciente um sono de verdade e uma saúde mais equilibrada.

    Perguntas frequentes

    Emagrecer cura a apneia do sono?

    Depende do caso. A perda de peso reduz a gravidade da apneia em quase todo mundo e, em quadros leves associados ao excesso de peso, pode até resolver. Na apneia moderada a grave, costuma melhorar bastante, mas muitas vezes precisa ser combinada com outros tratamentos, como o CPAP.

    Só pessoas com obesidade têm apneia?

    Não. O excesso de peso é um dos principais fatores de risco, mas pessoas magras também podem ter apneia, por características da anatomia da face e da garganta, obstrução nasal ou fatores hormonais. Por isso o diagnóstico depende de avaliação, e não só do peso.

    Apneia do sono engorda?

    Pode contribuir, sim. Ao fragmentar o sono, a apneia desregula os hormônios do apetite (aumenta a fome e reduz a saciedade), piora a resistência à insulina e gera cansaço que reduz a disposição para se exercitar. Esse conjunto favorece o ganho de peso e ajuda a explicar por que tratar a apneia costuma facilitar o controle do peso.

    Por que durmo mal e ainda assim engordo?

    O sono fragmentado da apneia desregula os hormônios do apetite: aumenta a fome, reduz a saciedade e piora a forma como o corpo lida com o açúcar. Somado ao cansaço que reduz a disposição para se exercitar, isso favorece o ganho de peso mesmo com esforço para emagrecer.

    As canetas emagrecedoras tratam a apneia?

    De forma indireta, sim. Ao promover perda de peso, medicamentos como a tirzepatida reduziram a gravidade da apneia em estudos recentes. Elas atuam sobre a causa (o excesso de peso), mas não substituem a avaliação da via aérea nem, em muitos casos, o CPAP. A indicação é sempre individual e feita por médico.

    Quem prescreve as canetas emagrecedoras?

    A prescrição e o acompanhamento cabem ao médico responsável pelo tratamento do peso, em geral o endocrinologista ou o nutrólogo. O otorrinolaringologista cuida da via aérea e da apneia. O ideal é o trabalho em equipe, com os especialistas se complementando.

    Como saber se eu tenho apneia?

    Sinais de alerta incluem ronco alto, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, sono que não descansa, cansaço e sonolência durante o dia. O diagnóstico começa por uma avaliação clínica e das vias aéreas e costuma ser confirmado pela polissonografia, o exame do sono.

    Vale conversar sobre o seu caso

    Se você convive com ronco, sono que não descansa, cansaço durante o dia ou dificuldade de emagrecer, pode haver uma apneia do sono por trás, alimentando esse ciclo. A boa notícia é que ele pode ser rompido, e quanto antes se entende a origem do problema, melhores são os resultados.

    O Dr. José Eduardo Marcondes é MÉDICO otorrinolaringologista (CRM-SP 107.711 | RQE 43.840), com atuação em cirurgia nasal e no tratamento do ronco e da apneia do sono, atendendo no Morumbi e no Itaim (São Paulo) e em Alphaville (Barueri). Se fizer sentido para você, agende uma avaliação para conversarmos sobre o seu caso, de preferência num cuidado integrado com o tratamento do peso.

    Referências

    1. Peppard PE, Young T, Palta M, Dempsey J, Skatrud J. Longitudinal study of moderate weight change and sleep-disordered breathing. JAMA. 2000;284(23):3015-3021. doi:10.1001/jama.284.23.3015.
    2. Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al. Tirzepatide for the treatment of obstructive sleep apnea and obesity (SURMOUNT-OSA). New England Journal of Medicine. 2024;391(13):1193-1205. doi:10.1056/NEJMoa2404881.
    3. Spiegel K, Tasali E, Penev P, Van Cauter E. Sleep curtailment in healthy young men is associated with decreased leptin levels, elevated ghrelin levels, and increased hunger and appetite. Annals of Internal Medicine. 2004;141(11):846-850. doi:10.7326/0003-4819-141-11-200412070-00008.
    4. Schwartz AR, Patil SP, Laffan AM, Polotsky V, Schneider H, Smith PL. Obesity and obstructive sleep apnea: pathogenic mechanisms and therapeutic approaches. Proceedings of the American Thoracic Society. 2008;5(2):185-192. doi:10.1513/pats.200708-137MG.

    Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.

    Sobre o autor

    Dr. José Eduardo Marcondes

    Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840

    Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Focado no tratamento do ronco e da apneia do sono, obstrução nasal, sinusite crônica, adenoides e amígdalas, em adultos e crianças. Membro da ABORL-CCF e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz.

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  • Laser na otorrinolaringologia: como funcionam o holmium, o blue laser e o Fotona

    Laser na otorrinolaringologia: como funcionam o holmium, o blue laser e o Fotona

    Nos últimos anos, o laser deixou de ser uma promessa distante e passou a fazer parte do dia a dia da otorrinolaringologia. Mas é comum haver uma confusão: as pessoas falam do “laser” como se fosse uma coisa só, quando na verdade existem vários tipos, cada um com um comportamento diferente dentro do tecido. Um laser que serve para reduzir cornetos não é o mesmo que se usa para tratar o ronco, e nenhum dos dois é igual ao que corta e coagula tecidos moles.

    Neste artigo, a proposta é explicar, de forma acessível, como um laser age no corpo e apresentar três exemplos usados na otorrino: o laser de holmium na turbinoplastia, o blue laser nas doenças da laringe e das pregas vocais e o laser Fotona no tratamento do ronco e da apneia do sono. A ideia não é dizer qual é o “melhor”, e sim mostrar que cada um tem um alvo e uma finalidade próprios.

    Como um laser age no tecido: a ideia de alvo

    Um laser é, essencialmente, luz de um único comprimento de onda, uma “cor” única e muito concentrada, mesmo quando essa luz é invisível aos nossos olhos. O que faz um laser ser útil na medicina é o seguinte princípio: cada comprimento de onda é absorvido de preferência por um componente diferente do tecido. Esse componente que absorve a luz é chamado de cromóforo, e funciona como o “alvo” do laser.

    Na prática, dois alvos importam bastante na otorrino:

    • A água, presente em quase todo tecido mole, absorve muito bem a luz infravermelha. É o alvo dos lasers de holmium e de érbio.
    • A hemoglobina (do sangue) e a melanina absorvem a luz na faixa do azul e do verde. É o que torna o blue laser capaz de agir sobre os vasos, uma propriedade chamada de fotoangiolítica.

    Quando a luz é absorvida, ela vira calor localizado. E, conforme a potência, a duração dos pulsos e o modo de aplicação, esse calor pode produzir efeitos bem distintos:

    • Ablação: vaporizar ou cortar o tecido.
    • Coagulação: selar pequenos vasos e reduzir o sangramento.
    • Efeito térmico não ablativo: apenas aquecer de forma controlada, sem cortar nem remover tecido, o que estimula o colágeno.

    Some se a isso a profundidade que cada comprimento de onda alcança, alguns agem mais na superfície, outros penetram um pouco mais, e fica mais fácil entender por que cada laser é escolhido para uma tarefa específica. É esse raciocínio que guia os três exemplos a seguir.

    Laser de holmium (Ho:YAG) na turbinoplastia

    Corte do nariz mostrando os cornetos, alvo da turbinoplastia a laser

    Os cornetos nasais são estruturas dentro do nariz que aquecem, umidificam e filtram o ar que respiramos. O problema aparece quando eles incham de forma crônica, algo comum na rinite e na alergia, e passam a obstruir a passagem do ar. O resultado é aquela sensação de nariz entupido que não melhora, atrapalha o sono e não cede só com medicação.

    A turbinoplastia é o procedimento que reduz o volume do corneto para desobstruir o nariz, com o cuidado de preservar a função dele. É aqui que entra o laser de holmium (sigla técnica Ho:YAG, de comprimento de onda em torno de 2.100 nm).

    Como funciona. O holmium é um laser pulsado, absorvido pela água do tecido, com penetração relativamente rasa e boa capacidade de coagular. Aplicado sobre o corneto aumentado, ele reduz o tecido responsável pelo inchaço e, ao mesmo tempo, coagula os pequenos vasos, o que diminui o sangramento durante o procedimento. Por atuar de maneira localizada, procura preservar a mucosa de revestimento e a função de umidificação do nariz.

    Uma curiosidade: como a luz do holmium é infravermelha e invisível, o aparelho projeta junto um feixe de mira verde, para o cirurgião enxergar exatamente onde vai atuar. É por isso que, nas imagens de cirurgia, esse laser aparece verde.

    Vantagens neste contexto. Duas características chamam a atenção. A primeira é a boa hemostasia: por coagular enquanto reduz o tecido, o procedimento tende a cursar com pouco sangramento. A segunda é a durabilidade dos resultados. Em um estudo comparativo de longo prazo, a melhora subjetiva da respiração nasal foi relatada por cerca de 67,5% dos pacientes tratados com holmium e 74,4% dos tratados com laser de diodo, com melhora objetiva do fluxo aéreo tanto aos 6 meses quanto aos 3 anos. [1]

    Um ponto que chama a atenção é que reduzir o corneto não melhora apenas o nariz entupido. Ao diminuir o volume da mucosa que reage aos alérgenos e das glândulas que produzem secreção, o procedimento tende a reduzir também os espirros, a coriza e a coceira, ou seja, o conjunto de sintomas das crises de rinite alérgica. Um grupo japonês acompanhou pacientes por até cinco anos após o laser de cornetos e observou melhora mantida dos espirros, da coriza e da obstrução, com boa parte deles seguindo sem medicação. [2] E uma revisão sistemática com metanálise de 2023, reunindo 18 estudos e mais de 1.400 pacientes, confirmou que a redução dos cornetos melhora de forma significativa a obstrução, a coriza, os espirros e a coceira nasal, com benefício mantido por mais de um ano. [3]

    Apesar dessa redução do corneto e da melhora da obstrução e dos sintomas alérgicos, a alergia não deixa de existir. Se a rinite não for controlada, o corneto pode voltar a inchar com o tempo. Por isso a turbinoplastia costuma fazer parte de um plano, e é importante manter o acompanhamento de longo prazo.

    Blue laser (445 nm) nas doenças da laringe e das pregas vocais

    Visão endoscópica da laringe e das pregas vocais, alvo do blue laser

    A laringe abriga as pregas vocais, estruturas delicadas e em constante movimento, responsáveis por produzir a voz. Qualquer lesão ali, por menor que seja, pode alterar a voz e exige um tratamento preciso, capaz de resolver o problema sem machucar o tecido fino e organizado em camadas da prega vocal. É nesse cenário exigente que o blue laser (luz azul, de 445 nm) encontrou um papel de destaque.

    Por que o alvo importa aqui. O alvo principal do blue laser é a hemoglobina, por isso ele age de preferência sobre os vasos sanguíneos. Acontece que muitas lesões das pregas vocais ou são vasculares, ou são alimentadas por vasos anormais. Ao ser absorvido pela hemoglobina, o laser coagula esses microvasos de forma seletiva, tratando a lesão com pouco sangramento e procurando poupar o ligamento vocal e as camadas mais profundas, o que ajuda a preservar a voz. Essa capacidade de atuar sobre os vasos é o que se chama de efeito fotoangiolítico.

    O que pode ser tratado. Na laringe, o blue laser tem sido empregado em uma variedade de lesões, entre elas [4][5]:

    • lesões vasculares das pregas vocais, como varizes, ectasias e pólipos hemorrágicos;
    • edema de Reinke;
    • papilomatose laríngea (lesões causadas pelo HPV, que costumam recidivar);
    • leucoplasia e lesões displásicas iniciais;
    • granulomas.

    Vantagens neste contexto. Além de coagular, o blue laser também corta, algo que os lasers fotoangiolíticos clássicos, como o KTP, não fazem. Em cirurgia da laringe, essa combinação foi descrita como reunir, num só aparelho, a propriedade de cortar e a de tratar os vasos. [4] Como é conduzido por uma fibra muito fina, permite uma abordagem precisa e pouco invasiva das lesões das pregas vocais, e a coagulação seletiva dos vasos melhora a visão durante o procedimento. Na prática, o blue laser já foi aplicado a diferentes lesões vocais, como pólipos, edema de Reinke, papiloma e leucoplasia. [5] Por ser repetível, é ainda uma opção útil quando a lesão tende a voltar, como acontece na papilomatose.

    Vale a mesma ressalva dos demais exemplos: a escolha do laser e da abordagem depende do tipo de lesão, e o diagnóstico correto vem sempre antes da tecnologia.

    Laser Fotona (Er:YAG) no ronco e na apneia do sono

    Aplicação de laser na garganta em consultório de otorrinolaringologia

    O terceiro exemplo muda de novo o objetivo. No tratamento do ronco e da apneia obstrutiva do sono, muitas vezes o problema está na flacidez dos tecidos da garganta, o palato mole, a úvula e as paredes da faringe, que vibram (o ronco) e, em parte das pessoas, chegam a colapsar e obstruir a passagem do ar (a apneia). O objetivo, nesse caso, não é cortar nem remover tecido, e sim tonificá-lo.

    Como funciona. O laser Fotona, no protocolo NightLase, usa um laser de érbio (Er:YAG, de 2.940 nm), num modo chamado SMOOTH, de aplicação não ablativa. Ele aquece os tecidos da garganta de forma controlada, sem cortar e sem anestesia. Esse calor provoca a contração das fibras de colágeno já existentes e estimula a produção de colágeno novo nas semanas seguintes. O tecido tende a ficar gradualmente mais firme, com menos tendência a vibrar e a colapsar durante o sono.

    Vantagens e limites. É um procedimento de consultório, indolor, sem cortes e sem tempo de recuperação. Uma revisão sistemática com metanálise, de 2025, concluiu que o laser de érbio é uma opção segura e eficaz a curto e médio prazo para pacientes selecionados com ronco ou apneia leve a moderada, com benefícios que costumam durar de 1 a 2 anos. [6] Um ensaio clínico randomizado e controlado, com grupo placebo, também mostrou redução significativa do ronco com o protocolo NightLase, bem tolerado. [7] Um seguimento de 4 anos reforçou esse perfil ao longo do tempo. [8]

    O laser Fotona funciona melhor no ronco primário e na apneia de grau leve a moderado, e não substitui o CPAP nos casos moderados a graves. A melhora, além disso, costuma ser mais nítida nos sintomas relatados pelo paciente e normalmente precisa de sessões de reforço ao longo do tempo.

    Os três lasers lado a lado

    O quadro abaixo resume por que cada laser vai para uma tarefa diferente. Repare que a lógica é sempre a mesma: o comprimento de onda define o alvo, e o alvo define a aplicação.

    Laser Comprimento de onda Alvo principal Ação predominante Aplicação em destaque
    Blue laser 445 nm hemoglobina e melanina corta e coagula (fotoangiolítico) doenças da laringe e das pregas vocais
    Holmium (Ho:YAG) 2.100 nm água coagula e reduz volume turbinoplastia (redução de cornetos)
    Érbio (Er:YAG, Fotona) 2.940 nm água aquece sem cortar (não ablativo) ronco e apneia (palato e faringe)

    Note que holmium e érbio têm o mesmo alvo (a água), mas produzem efeitos bem diferentes por causa do comprimento de onda, da forma dos pulsos e do modo de aplicação. Isso mostra que não basta saber o alvo: o “como” também conta.

    O laser é sempre a melhor opção?

    Um laser é uma ferramenta, não um diagnóstico. Ele pode ser uma boa escolha em muitas situações, mas a decisão depende sempre da causa do problema. Alguns exemplos ajudam a entender:

    • Se o nariz entope por causa de um desvio de septo, reduzir apenas o corneto a laser pode não resolver, porque a obstrução principal está na estrutura óssea e cartilaginosa.
    • Se a apneia do sono é grave, o tratamento de escolha continua sendo o CPAP ou, em casos selecionados, a cirurgia, e não o laser.
    • Em vários procedimentos, existem alternativas que não usam laser (como a radiofrequência e as técnicas cirúrgicas convencionais), com bons resultados.

    Por isso, a pergunta certa não é “qual o melhor laser?”, e sim “qual o melhor tratamento para o meu caso?”. A resposta vem de uma avaliação que entenda a origem do sintoma antes de escolher a tecnologia.

    Perguntas frequentes

    Existe um “melhor laser” para a otorrino?

    Não. Cada laser tem um alvo e uma finalidade. O que serve para reduzir cornetos não é o mesmo que se usa para tonificar a garganta no ronco, nem o mais indicado para cortar tecidos moles com controle de sangramento. O melhor laser é o mais adequado ao objetivo de cada caso.

    Todo tratamento a laser dói ou precisa de anestesia?

    Depende do procedimento e do tipo de laser. A aplicação do laser Fotona para o ronco, por exemplo, é indolor e não exige anestesia, enquanto os procedimentos que reduzem ou removem tecido, como a turbinoplastia e as cirurgias da laringe, exigem anestesia adequada, definida caso a caso na avaliação.

    O laser sempre corta ou remove tecido?

    Não. Alguns lasers cortam ou reduzem tecido (como o holmium e o blue laser), e outros apenas aquecem de forma controlada, sem cortar (como o Fotona no modo não ablativo). São finalidades diferentes.

    O laser usado na prega vocal prejudica a voz?

    O objetivo é justamente o contrário: tratar a lesão preservando ao máximo o tecido saudável da prega vocal. Por agir de forma seletiva sobre os vasos, o blue laser procura poupar as camadas responsáveis pela vibração e pela voz. Ainda assim, todo procedimento na laringe exige avaliação e técnica cuidadosas, e a recuperação da voz é acompanhada caso a caso.

    O laser de corneto cura a rinite?

    Não. A turbinoplastia reduz a obstrução causada pelo corneto aumentado, mas a rinite de base precisa do seu próprio tratamento. Sem controlar a causa, o corneto pode voltar a inchar com o tempo.

    O laser Fotona substitui o CPAP?

    Nem sempre. Na apneia leve a moderada, pode ser uma alternativa ou um complemento. Na apneia moderada a grave, o CPAP ou a cirurgia continuam sendo o tratamento de escolha. A definição depende da polissonografia e da avaliação individual.

    Qualquer pessoa pode fazer um tratamento a laser?

    A indicação é sempre individual e definida após avaliação médica. Existem situações que contraindicam cada procedimento, e o laser nem sempre é o caminho principal.

    Em resumo

    O laser não é uma tecnologia única, e sim uma família de ferramentas que se diferenciam pelo comprimento de onda e pelo alvo no tecido. O holmium reduz cornetos com boa hemostasia, o blue laser trata lesões da laringe e das pregas vocais coagulando os vasos e procurando preservar a voz, e o laser Fotona tonifica a garganta para ajudar no ronco e na apneia leve a moderada. Conhecer essas diferenças ajuda o paciente a entender as opções, mas a escolha da melhor abordagem depende sempre do diagnóstico.

    Se você tem dúvidas sobre obstrução nasal, ronco, apneia do sono ou sobre qual tratamento faz sentido no seu caso, o caminho é uma avaliação que identifique a causa antes de decidir a tecnologia.

    O Dr. José Eduardo Marcondes é MÉDICO otorrinolaringologista (CRM-SP 107.711 | RQE 43.840), com atuação em cirurgia nasal e no tratamento do ronco e da apneia do sono, atendendo no Morumbi e no Itaim (São Paulo) e em Alphaville (Barueri).

    Referências

    Sroka R, Janda P, Killian T, Vaz F, Betz CS, Leunig A. Comparison of long term results after Ho:YAG and diode laser treatment of hyperplastic inferior nasal turbinates. Lasers in Surgery and Medicine. 2007;39(4):324-331. doi:10.1002/lsm.20479.

    Takeno S, Nakashimo Y, Ishino T, Miyahara N, Goh K, Noda N, Hirakawa K. Long-Term Results after Carbon Dioxide Laser Surgery of the Inferior Turbinate for Perennial Allergic Rhinitis. Nihon Bika Gakkai Kaishi (Japanese Journal of Rhinology). 2011;50(1):7-12. doi:10.7248/jjrhi.50.7.

    Park SC, Kim DH, Jun YJ, Kim SW, Yang HJ, Yang SI, Kim HJ, Kim DK. Long-term Outcomes of Turbinate Surgery in Patients With Allergic Rhinitis: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Otolaryngology-Head and Neck Surgery. 2023;149(1):15-23. doi:10.1001/jamaoto.2022.3567.

    Hess MM, Fleischer S, Ernstberger M. New 445 nm blue laser for laryngeal surgery combines photoangiolytic and cutting properties. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology. 2018;275(6):1557-1567. doi:10.1007/s00405-018-4974-8.

    Hamdan AL, Ghanem A. Un-sedated Office-Based Application of Blue Laser in Vocal Fold Lesions. Journal of Voice. 2023;37(5):785-789. doi:10.1016/j.jvoice.2021.03.031.

    Dembicka-Mączka D, et al. Effectiveness of the Er:YAG Laser in Snoring Treatment Based on Systematic Review and Meta-Analysis Results. Journal of Clinical Medicine. 2025;14(12):4371. doi:10.3390/jcm14124371.

    Picavet VA, et al. Treatment of snoring using a non-invasive Er:YAG laser with SMOOTH mode (NightLase): a randomized controlled trial. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology. 2022;280(1):307-312. doi:10.1007/s00405-022-07539-9.

    Frelich H, et al. Erbium:Yttrium Aluminum Garnet (Er:YAG) Laser: A Minimally Invasive Treatment Method in Selected Patients with Impaired Breathing During Sleep. Photobiomodulation, Photomedicine, and Laser Surgery. 2023;41(8):415-421. doi:10.1089/photob.2022.0144.

    Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico. As referências a estudos são apresentadas de forma factual e não configuram promessa de resultado.

    Sobre o autor

    Dr. José Eduardo Marcondes

    Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840

    Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Focado no tratamento do ronco e da apneia do sono, obstrução nasal, sinusite crônica, adenoides e amígdalas, em adultos e crianças. Membro da ABORL-CCF e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz.

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  • Apneia do sono em homens e mulheres: por que a mesma doença se manifesta de formas diferentes

    Apneia do sono em homens e mulheres: por que a mesma doença se manifesta de formas diferentes

    A apneia obstrutiva do sono costuma ser lembrada como um problema de “homem que ronca alto”. Essa imagem tem um fundo de verdade, mas conta só metade da história. A apneia também acontece em mulheres, e com frequência passa despercebida justamente porque se manifesta de um jeito diferente do que se espera. Entender essas diferenças ajuda tanto quem convive com um roncador quanto quem sente cansaço e sono ruim sem saber a causa.

    Neste texto sobre apneia do sono em homens e mulheres, o objetivo é educativo: mostrar como a doença se comporta em cada sexo, por que é subdiagnosticada nas mulheres e o que muda (e o que não muda) na hora de investigar e tratar.

    Apneia do sono em homens e mulheres: homem roncando enquanto dorme e a parceira acordada observando a respiração

    O que é a apneia obstrutiva do sono

    Durante o sono, a musculatura da garganta relaxa. Em quem tem a via aérea mais estreita ou os tecidos mais flácidos, esse relaxamento pode fechar temporariamente a passagem de ar, interrompendo a respiração por alguns segundos, várias vezes por noite. Cada pausa faz o cérebro reagir com um microdespertar para voltar a respirar. O sono se fragmenta, o corpo não descansa de verdade e o oxigênio no sangue oscila ao longo da noite.

    Essa é a apneia obstrutiva do sono. Ela atinge homens e mulheres, mas a forma de aparecer, de ser percebida e até de ser diagnosticada muda conforme o sexo.

    Ilustração comparando a via aérea aberta durante o sono e a via aérea obstruída na apneia

    Prevalência e epidemiologia: mais comum em homens, mas não rara em mulheres

    A apneia é, de fato, mais frequente em homens. Um dos estudos populacionais de referência, a coorte do sono de Wisconsin, encontrou distúrbio respiratório do sono (definido por um índice de apneias e hipopneias por hora de sono igual ou maior que 5) em cerca de 24% dos homens e 9% das mulheres de meia-idade. A proporção clássica descrita é de aproximadamente 2 a 3 homens para cada mulher na população geral.

    Só que esse número esconde uma armadilha. Nos consultórios e laboratórios do sono, por muito tempo a proporção parecia ainda maior (chegava a ser descrita como 8 ou 10 homens para cada mulher), não porque as mulheres adoeçam tão menos, e sim porque elas eram encaminhadas com muito menos frequência para investigação. Em outras palavras: parte da diferença entre os sexos não é biológica, é de diagnóstico.

    Há ainda um fator que muda tudo ao longo da vida da mulher: a menopausa. Antes dela, o risco feminino é mais baixo. Depois, a prevalência sobe de forma expressiva e se aproxima da observada nos homens. A apneia, portanto, não é uma doença “de homem”, e sim uma doença que se distribui de maneira diferente entre os sexos e ao longo do tempo.

    Causas: por que os homens tendem a ter mais

    As diferenças começam na anatomia e na fisiologia.

    • Distribuição de gordura. Os homens tendem a acumular gordura na região do pescoço e do abdome (o padrão andróide), o que aumenta a pressão sobre a via aérea e o esforço para respirar deitado.
    • Formato e comprimento da via aérea. A via aérea masculina costuma ser mais longa e mais propensa ao colapso durante o sono.
    • Proteção hormonal feminina. Antes da menopausa, os hormônios femininos (em especial a progesterona e o estrogênio) ajudam a manter o estímulo respiratório e o tônus dos músculos que sustentam a garganta. Isso funciona como uma proteção parcial. Com a queda hormonal da menopausa, essa proteção diminui e o risco aumenta.

    Nas mulheres, entram ainda outros gatilhos: o ganho de peso, a síndrome dos ovários policísticos e a própria gravidez, período em que alterações hormonais e anatômicas podem favorecer o surgimento ou a piora da apneia. Em ambos os sexos, a obstrução nasal (por desvio de septo, cornetos aumentados ou rinite) e o excesso de peso costumam participar do problema.

    Sintomas: a mesma doença, dois retratos diferentes

    Aqui está talvez a diferença mais importante da apneia do sono em homens e mulheres na prática.

    No homem, a apneia costuma se apresentar pelo retrato “clássico”, aquele que a maioria das pessoas reconhece:

    • ronco alto e persistente;
    • pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado;
    • sonolência excessiva durante o dia (cochilar em reuniões, no trânsito, ao ler).

    Na mulher, os sintomas tendem a ser menos típicos e, por isso, mais facilmente confundidos com outras condições:

    • cansaço e falta de energia (mais do que “sono” propriamente dito);
    • insônia ou sono que não descansa;
    • dor de cabeça ao acordar;
    • alterações de humor, como ansiedade e sintomas depressivos;
    • dificuldade de concentração e de memória.

    O ronco existe nas mulheres, mas costuma ser relatado como mais leve, e as pausas na respiração são menos frequentemente notadas. O resultado é que a queixa que leva ao diagnóstico muitas vezes não aparece.

    Mulher acordando cansada, com dor de cabeça, sinal de sono não reparador

    A forma de expressar os sintomas também muda

    Não é só o corpo que se comporta de modo diferente: a maneira de contar o que sente também. Muitas mulheres não relatam o ronco de forma espontânea, seja porque dormem sozinhas e ninguém observa, seja por um constrangimento social ainda associado ao ronco feminino. E, quando descrevem o mal-estar, tendem a usar palavras como “cansaço”, “estafa” ou “estresse”, em vez de “sono durante o dia”.

    Do outro lado, o homem frequentemente chega ao consultório levado pela queixa de quem divide a cama: é o ronco alto e as pausas na respiração que disparam a procura por ajuda. Essa diferença na forma de relatar faz com que a apneia masculina seja “vista” com mais facilidade e a feminina permaneça em silêncio por mais tempo.

    Impactos na vida e na saúde

    A apneia não tratada vai muito além do sono ruim. Em ambos os sexos, ela está associada a maior risco de hipertensão, arritmias, doenças cardiovasculares, alterações metabólicas e piora da qualidade de vida.

    Nas mulheres, alguns aspectos merecem atenção especial. Os sintomas de humor e de fadiga tendem a pesar bastante no dia a dia e na percepção de bem-estar. E, durante a gravidez, a apneia se associa a um risco maior de complicações como hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e diabetes gestacional, o que reforça a importância de investigar o sono também nesse período.

    Nos homens, o diagnóstico mais precoce é uma vantagem, mas a sonolência diurna traz riscos concretos, como acidentes de trânsito e de trabalho, além do impacto no desempenho e no relacionamento.

    Como cada sexo costuma lidar com a doença

    Por serem encaminhadas menos e mais tarde, muitas mulheres passam anos com sintomas atribuídos a depressão, hipotireoidismo, anemia, fibromialgia ou “coisas da menopausa” antes de a apneia ser cogitada. Esse atraso no diagnóstico é um dos pontos mais importantes a corrigir.

    Nos homens, o caminho até o diagnóstico costuma ser mais curto, principalmente quando há um parceiro ou parceira que percebe o ronco e as pausas. Uma vez diagnosticados, homens e mulheres podem ter facilidades e dificuldades diferentes na adesão ao tratamento, e por isso o acompanhamento próximo, ajustando o que for preciso, faz diferença no resultado.

    A mensagem prática é simples: cansaço crônico, sono que não descansa, dor de cabeça matinal e alterações de humor merecem investigação do sono, mesmo sem o ronco estrondoso do retrato clássico.

    Diagnóstico: o mesmo exame, um olhar atento às diferenças

    O diagnóstico não muda de exame conforme o sexo, mas exige atenção para não deixar a apneia feminina passar batida. A avaliação costuma incluir:

    • uma conversa detalhada sobre o sono, os sintomas e os hábitos;
    • o exame das vias aéreas, muitas vezes com endoscopia nasal, para verificar se há um componente nasal atrapalhando;
    • quando indicada, a polissonografia (o “exame do sono”), que confirma o diagnóstico e classifica a gravidade.

    Vale um cuidado adicional: nas mulheres, a apneia tende a se concentrar em determinadas fases do sono (como o sono REM) e em certas posições, e o índice de eventos por hora pode ser mais baixo, ainda que os sintomas sejam importantes. Por isso, o número isolado do exame precisa ser sempre interpretado junto com o quadro clínico da pessoa.

    Otorrinolaringologista avaliando as vias aéreas com endoscopia nasal em consulta

    Tratamento da apneia do sono em homens e mulheres: princípios iguais, ajuste individual

    As opções de tratamento são, no geral, as mesmas para homens e mulheres, e a escolha depende da gravidade, da anatomia e do estilo de vida de cada um:

    • CPAP: o aparelho de pressão positiva continua sendo o tratamento mais consolidado para a apneia moderada a grave, em ambos os sexos.
    • Aparelho intraoral e terapia posicional: úteis em casos selecionados, sobretudo quando a apneia é mais leve, posicional ou concentrada no sono REM, um padrão comum nas mulheres.
    • Tratar o nariz: quando a obstrução nasal é parte do problema, a septoplastia e a turbinoplastia podem melhorar a respiração e ajudar inclusive na adesão ao CPAP.
    • Laser: para o ronco e a apneia leve a moderada, o laser Fotona (protocolo NightLase) pode ser uma alternativa não cirúrgica. São realizadas de 3 a 4 sessões em consultório, com excelentes resultados em casos selecionados.
    • Cirurgia: em alguns casos, a cirurgia, como a septoplastia, a faringoplastia robótica ou a sutura barbada, pode ser uma opção de tratamento em pacientes com alterações anatômicas favoráveis.
    • Mudanças de hábitos: controle do peso, atenção ao álcool à noite e ao sono também fazem parte do tratamento, seja qual for o sexo.

    Nas mulheres, ainda vale considerar o momento de vida (menopausa e gravidez, por exemplo) na hora de definir a melhor estratégia. Em todos os casos, o objetivo é o mesmo: tratar a causa da obstrução, e não apenas silenciar o ronco.

    Perguntas frequentes

    A apneia do sono é só coisa de homem?

    Não. A apneia é mais frequente em homens, mas também acontece em mulheres, especialmente após a menopausa. Boa parte da diferença observada vem do fato de a doença ser menos investigada nas mulheres, e não apenas de elas adoecerem menos.

    Por que a apneia é mais difícil de diagnosticar nas mulheres?

    Porque os sintomas costumam ser menos típicos: cansaço, insônia, dor de cabeça ao acordar e alterações de humor, em vez do ronco alto com pausas. Esses sinais são facilmente confundidos com depressão, estresse ou sintomas da menopausa, o que atrasa o diagnóstico.

    Roncar pouco significa que não tenho apneia?

    Não necessariamente. O ronco pode ser leve ou pouco percebido, sobretudo em mulheres, e ainda assim haver apneia. Se existe cansaço persistente, sono que não descansa ou sonolência, vale investigar.

    A menopausa aumenta o risco de apneia?

    Sim. Com a queda dos hormônios femininos, a proteção parcial contra a apneia diminui, e a prevalência na mulher sobe, aproximando-se da observada nos homens.

    Apneia na gravidez é motivo de preocupação?

    Pode ser. A apneia na gestação se associa a maior risco de hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e diabetes gestacional. Sintomas de sono na gravidez merecem avaliação.

    O tratamento é diferente para homens e mulheres?

    Os princípios são os mesmos (CPAP, tratar o nariz, aparelho intraoral, mudanças de hábitos, laser ou cirurgia em casos selecionados). O que muda é o ajuste individual, considerando anatomia, gravidade, padrão do sono e o momento de vida de cada pessoa.

    Vale conversar sobre o seu caso

    Se você (ou alguém próximo) tem cansaço que não passa, sono que não descansa, ronco ou pausas na respiração, o primeiro passo é uma avaliação que entenda a origem do problema. A apneia do sono tem tratamento, e reconhecer que a apneia do sono em homens e mulheres se manifesta de formas diferentes é parte de chegar ao diagnóstico certo.

    O Dr. José Eduardo Marcondes é MÉDICO otorrinolaringologista (CRM-SP 107.711 | RQE 43.840), com atuação em cirurgia nasal e no tratamento do ronco e da apneia do sono, atendendo no Morumbi e no Itaim (São Paulo) e em Alphaville (Barueri). Se fizer sentido para você, agende uma avaliação para conversarmos sobre o seu caso.

    Referências

    1. Young T, Palta M, Dempsey J, Skatrud J, Weber S, Badr S. The occurrence of sleep-disordered breathing among middle-aged adults. New England Journal of Medicine. 1993;328(17):1230-1235. doi:10.1056/NEJM199304293281704.
    2. Bonsignore MR, Saaresranta T, Riha RL. Sex differences in obstructive sleep apnoea. European Respiratory Review. 2019;28(154):190030. doi:10.1183/16000617.0030-2019.
    3. Lin CM, Davidson TM, Ancoli-Israel S. Gender differences in obstructive sleep apnea and treatment implications. Sleep Medicine Reviews. 2008;12(6):481-496. doi:10.1016/j.smrv.2007.11.003.

    Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.

  • Cirurgia do ronco e da apneia do sono: o que é, como funciona e quando fazer

    Cirurgia do ronco e da apneia do sono: o que é, como funciona e quando fazer

    Um guia completo para você entender o ronco e a apneia do sono, se a cirurgia pode ajudar e como ela funciona.

    Começando: o que provoca o ronco? O que é apneia do sono? Como isso acontece?

    A apneia do sono é uma parada da respiração que acontece durante a noite. O ronco é um barulho produzido pela vibração das estruturas da via aérea durante a passagem do ar. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Por que isso acontece?

    Vamos voltar um pouquinho para isso ficar mais claro. Vamos entender rapidamente como funciona a nossa respiração, que a partir daí fica muito fácil entender o que é o ronco e a apneia do sono.

    Quando nós inspiramos, para que o ar entre no nosso corpo, a musculatura do nosso pulmão, especialmente o diafragma, expande a caixa torácica, aumentando o volume (você pode ver o seu pulmão se expandindo ao inspirar). Esse movimento de expansão aumenta o volume da caixa torácica e por consequência diminui a pressão dentro do nosso pulmão. Essa pressão negativa se espalha por toda a via aérea (traqueia, laringe, faringe, cavidade oral e nariz), e o ar entra no pulmão por diferença de pressão. Preste atenção nesse conceito, pois ele será fundamental para entender o que acontece na sua garganta que faz você roncar quando dorme.

    Quando dormimos a nossa musculatura do corpo relaxa e consequentemente a musculatura da nossa faringe e da língua também estão mais flácidas. Quando puxamos o ar durante a noite, a pressão negativa criada pelo pulmão se transmite por toda a via aérea, e encontra a musculatura relaxada. Dependendo da intensidade do fluxo de ar e do relaxamento muscular, esse músculo vibra, e funciona como uma espécie de instrumento musical, produzindo um som, o famoso ronco. Então o ronco nada mais é do que o barulho produzido pela vibração da musculatura da via aérea. Agora, dependendo da intensidade da pressão negativa criada, a via aérea não vibra somente, ela se fecha, bloqueando a passagem de ar e provocando o que chamamos de apneia. Então veja como a apneia do sono e o ronco estão intimamente ligados. São espectros diferentes do mesmo processo.

    Se a apneia e o ronco são tão ligados, qual a diferença entre os dois?

    A principal diferença é o impacto na saúde que esses dois problemas geram. A apneia do sono restringe a passagem de ar, total ou parcialmente, e isso gera uma série de efeitos deletérios no nosso corpo, como alterações da pressão, do sistema endócrino, da imunidade, diabetes, aumento da chance de infartos e derrames, impotência, entre outras coisas. Vale registrar que tratar a apneia melhora comprovadamente os sintomas, o sono e a qualidade de vida (estudo SAVE, 2016). Se você quiser entender exatamente o que acontece, leia o artigo a seguir:

    Fisiologia da Apneia do Sono: O Que Acontece em Nosso Corpo

    Já o ronco isolado, chamado de ronco primário, para a maioria das pessoas, não parece ser um grande problema, tendo em vista que a grande complicação que ele causa é social. Você não consegue dormir com seu cônjuge, tem vergonha de viajar com amigos, não dorme de jeito nenhum em um avião.

    Mas a questão é mais profunda. Roncar não é o mesmo que ter apneia. O ronco é um sinal de alerta que merece avaliação, não um diagnóstico por si só. Por isso, quem ronca de forma habitual deve ser investigado, principalmente quando há sinais associados. Quando comparados com a população em geral, os roncadores têm de 1,5 a 3 vezes mais chance de apresentar apneia do sono, dependendo do critério diagnóstico e do perfil da amostra.

    A apneia do sono é mais comum do que parece. No estudo EPISONO, feito na cidade de São Paulo, cerca de um terço dos adultos (32,8%) apresentava apneia do sono em algum grau. A gravidade é medida pelo IAH, o índice de apneia e hipopneia, que é o número de pausas na respiração por hora de sono: até 5 é considerado normal, de 5 a 15 é leve, de 15 a 30 é moderada e acima de 30 é grave.

    Algumas características tornam essa investigação ainda mais importante. Veja quais são:

    • Frequência: se você ronca mais de 3 a 4 vezes na semana
    • Sintomas associados: dor de cabeça matinal, alterações de concentração e memória, sonolência diurna, irritabilidade, perda da libido
    • Presença de outras doenças: pressão alta, diabetes, doenças cardiovasculares, disfunção erétil
    • Outras alterações: baixa testosterona, obesidade, medicações para dormir

    A investigação para apneia do sono é feita através da polissonografia, sempre, e também através de alguns outros exames que podem ser importantes a depender do caso e da conduta a seguir, como tomografia de seios da face, tomografia do pescoço, nasofibrolaringoscopia, sonoendoscopia, entre outros.

    Qual o tratamento da apneia do sono?

    O tratamento da apneia do sono tem de ser avaliado caso a caso, mas o objetivo de cada um deles é sempre o mesmo: manter a via aérea aberta e garantir a passagem de ar por ela.

    Cada uma das formas de tratamento vai utilizar-se de mecanismos diferentes para isso e as principais opções que podem ser utilizadas, isoladamente ou de forma combinada, são:

    • CPAP: esse aparelho cria uma pressão positiva de ar, invertendo a mecânica da respiração, ou seja, ao invés do pulmão criar uma pressão negativa e “puxar” o ar, o CPAP cria uma pressão positiva externa e “empurra” o ar para dentro do corpo.
    Mulher com apneia do sono dormindo com CPAP
    Mulher com apneia do sono dormindo com CPAP
    • Aparelho Intraoral: esse aparelho vai tracionar a mandíbula anteriormente e estruturar a língua e a faringe, mantendo a via aérea pérvia.
    Aparelho intraoral abrindo a via aérea de pessoa com apneia do sono
    Aparelho intraoral abrindo a via aérea de pessoa com apneia do sono
    • Terapia Fonoaudiológica: através de exercícios específicos da língua, palato, faringe, pescoço e tórax é possível fortalecer os músculos e facilitar a manutenção de uma via aérea livre e que favoreça a passagem de ar.
    Fonoaudióloga avaliando o palato de um paciente com apneia do sono
    Fonoaudióloga avaliando o palato de um paciente com apneia do sono
    • Laser fotona: estimula a produção de colágeno e o enrijecimento dos tecidos da garganta para abrir as vias aéreas
    Laser fotona sendo utilizado para tratamento da apneia do sono
    Laser fotona sendo utilizado para tratamento da apneia do sono
    • Cirurgia: através da remoção e reposicionamento de diversas estruturas garante uma via aérea ampla e que suporta a pressão da respiração, mantendo a passagem de ar pela via aérea
    Cirurgia de apneia do sono feita com auxílio do robô DaVinci
    Cirurgia de apneia do sono feita com auxilio do robô DaVinci
    Cirurgia para apneia do sono com uso de sutura barbada
    Cirurgia para apneia do sono com uso de sutura barbada

    Cirurgia para apneia do sono: como é realizada? Quais são os resultados?

    Conceito fundamental: não é apenas uma cirurgia, são várias

    A cirurgia é uma alternativa importante para pacientes que não se adaptaram ao CPAP ou a outros tratamentos. O CPAP é o tratamento de primeira linha e muito eficaz quando bem tolerado, mas entre 30% e 50% das pessoas não se adaptam ou abandonam o aparelho ao longo do tempo, e é aí que a cirurgia ganha espaço. O que muitos não sabem é que esta não é uma única cirurgia, mas sim um conjunto de procedimentos realizados simultaneamente, cada um direcionado para um ponto específico da via aérea superior.

    O conceito dos múltiplos procedimentos

    O objetivo principal do tratamento cirúrgico da apneia do sono é manter a via aérea aberta durante o sono. Como os eventos obstrutivos podem ocorrer em diferentes níveis das vias aéreas superiores (nariz, palato, paredes laterais da faringe e base da língua), a abordagem cirúrgica mais eficaz envolve tratar múltiplas áreas simultaneamente. Esta estratégia combinada tem demonstrado resultados superiores quando comparada ao tratamento de um único sítio de obstrução.

    Nível nasal: desobstrução das vias aéreas superiores

    Septoplastia: correção do desvio de septo

    A correção do desvio de septo nasal é frequentemente o primeiro passo da cirurgia em vários níveis. O desvio de septo pode aumentar a resistência à passagem de ar pelo nariz e favorecer a respiração pela boca durante o sono, o que piora o ronco. Vale ser claro sobre o papel do nariz: a obstrução nasal costuma piorar o ronco e dificultar o uso do CPAP, mas a correção nasal isolada raramente cura a apneia. Ela melhora a respiração, o ronco e, muitas vezes, a tolerância ao CPAP, e por isso costuma ser o primeiro passo de uma cirurgia em vários níveis.

    Durante a septoplastia, realizamos uma pequena incisão por dentro do nariz, onde a mucosa é descolada da cartilagem e osso do septo. As partes desviadas são então removidas ou reposicionadas para centralizar o septo nasal. Este procedimento melhora significativamente o fluxo de ar nasal e reduz a tendência à respiração bucal durante o sono.

    Turbinoplastia: redução dos cornetos nasais

    A cirurgia dos cornetos nasais é frequentemente realizada em conjunto com a septoplastia. Os cornetos hipertrofiados podem causar obstrução nasal crônica, forçando o paciente a respirar pela boca durante o sono, o que desestabiliza as vias aéreas superiores. A turbinoplastia visa reduzir o volume dos cornetos inferiores, mantendo sua função fisiológica de filtrar e umidificar o ar.

    Etmoidectomia e sinusectomia maxilar

    Quando necessário, realizamos também a etmoidectomia e sinusectomia maxilar. A etmoidectomia envolve a remoção de tecidos inflamados, pólipos ou bloqueios nos seios etmoidais que impedem a ventilação adequada. Este procedimento, realizado por técnica endoscópica, garante precisão e minimiza o impacto cirúrgico. A sinusectomia maxilar complementa o tratamento quando há acometimento dos seios maxilares, garantindo uma drenagem adequada e reduzindo infecções recorrentes que podem contribuir para a obstrução nasal.

    Além disso, associar esse procedimento ajuda a criar uma segunda via de fluxo de ar que pode diminuir a resistência à passagem de ar, contribuindo para o sucesso da cirurgia como um todo.

    Nível palatino: ampliação do espaço retropalatino

    Sutura barbada para abertura do palato

    A faringoplastia com sutura barbada representa uma técnica moderna e minimamente invasiva para o tratamento do palato mole. Esta técnica utiliza suturas especiais com pequenos ganchos bidirecionais que reforçam e estabilizam os tecidos da garganta, melhorando a tensão das vias aéreas superiores.

    Cada farpa da sutura representa um nó ancorado no tecido, proporcionando maior estabilidade da via aérea com tempo cirúrgico menor e melhor cicatrização. Esta abordagem é particularmente eficaz para pacientes com ronco causado pelo relaxamento excessivo dos tecidos palatinos, proporcionando recuperação mais rápida e bons resultados.

    Nível das paredes laterais: expansão funcional com robô DaVinci

    Faringoplastia de expansão funcional com robô DaVinci

    Uma evolução desta técnica é a Faringoplastia de Expansão Funcional (FEP) realizada com o sistema robótico Da Vinci. Este procedimento combina os princípios da faringoplastia expansora tradicional com a precisão e as vantagens da cirurgia robótica transoral.

    A técnica robótica de expansão funcional utiliza a visualização 3D magnificada e instrumentos articulados com movimentos de 360 graus para reposicionar o músculo palatofaríngeo. Durante o procedimento, o músculo palatofaríngeo é isolado da mucosa e do músculo constritor superior da faringe, sendo então transectado inferiormente para formar um retalho muscular com pedículo superior e medial.

    A extremidade livre do músculo palatofaríngeo é então rotacionada superiormente e fixada na transição entre o palato mole e duro, criando tensão na parede lateral da faringe. O robô permite realizar essa fixação com precisão milimétrica, garantindo o posicionamento ideal do músculo e reduzindo o risco de complicações.

    Esta abordagem robótica da expansão funcional oferece vantagens sobre a técnica tradicional. A visualização tridimensional permite identificação precisa das estruturas anatômicas, enquanto os instrumentos articulados possibilitam sutura em ângulos que seriam impossíveis com técnicas convencionais. O resultado é uma ampliação mais consistente do espaço faríngeo, com bons resultados em pacientes adequadamente selecionados.

    Nível da base da língua: cirurgia robótica

    Amigdalectomia lingual robótica

    A cirurgia robótica transoral (TORS) utilizando o sistema DaVinci representa a evolução mais avançada no tratamento da obstrução da base da língua.

    A amigdalectomia lingual robótica visa a remoção do tecido hipertrofiado na base da língua, incluindo as tonsilas linguais. O procedimento pode remover até 20 gramas de tecido, conforme necessário, baseado na anatomia do paciente e no grau de colapso durante o sono.

    Glossectomia parcial

    A glossectomia parcial da linha média complementa o tratamento robótico quando há macroglossia significativa. Este procedimento envolve a remoção física de uma porção da língua na área central, entre os principais vasos sanguíneos e nervos. A técnica é guiada por métodos de imagem avançados para garantir máxima segurança e preservação das funções essenciais da língua.

    Vantagens da abordagem combinada

    A realização simultânea destes múltiplos procedimentos oferece várias vantagens. Primeiramente, permite tratar todos os níveis de obstrução em um único tempo cirúrgico, reduzindo a necessidade de cirurgias subsequentes. Além disso, a abordagem em vários níveis costuma alcançar taxas de sucesso maiores do que tratar um único ponto.

    A cirurgia robótica oferece benefícios específicos, incluindo menor sangramento intraoperatório, recuperação mais rápida e preservação funcional com menor risco de alterações na deglutição e na fala. A visualização 3D de alta definição e a precisão dos instrumentos articulados ajudam a prevenir sangramentos e possibilitam a remoção do tecido em excesso.

    Recuperação e resultados

    A recuperação varia conforme a extensão dos procedimentos realizados.

    A cirurgia em vários níveis melhora a apneia na maioria dos casos bem selecionados. Em meta-análises, a taxa de sucesso (redução do IAH de pelo menos metade, com IAH final abaixo de 20) fica em torno de 60% a 66%, com redução média de cerca de 25 eventos por hora. A faringoplastia com sutura barbada e a cirurgia robótica da base da língua reduzem o IAH em torno de 24 eventos por hora nas séries publicadas. Vale ser transparente: os resultados dependem muito da seleção do paciente e do local da obstrução, e a cirurgia costuma melhorar bastante os sintomas e a qualidade de vida, sem necessariamente zerar a apneia.

    A cirurgia combinada para tratamento da apneia do sono representa, portanto, uma solução abrangente, que trata simultaneamente os pontos de obstrução da via aérea superior. Esta abordagem em vários níveis oferece aos pacientes uma alternativa eficaz ao CPAP, com resultados duradouros e melhora significativa da qualidade de vida.

    Perguntas frequentes

    Todo mundo que ronca tem apneia do sono?

    Não. O ronco é um sinal de alerta que merece avaliação, principalmente se for frequente ou vier acompanhado de sonolência, dor de cabeça pela manhã ou pressão alta. A chance de apneia é de 1,5 a 3 vezes maior em quem ronca do que na população geral, mas roncar não é, por si só, um diagnóstico de apneia.

    Como se mede a gravidade da apneia?

    Pelo IAH (índice de apneia e hipopneia), que conta as pausas na respiração por hora de sono, medido na polissonografia (o exame do sono): até 5 é normal, de 5 a 15 é leve, de 15 a 30 é moderada e acima de 30 é grave.

    A cirurgia cura a apneia do sono?

    Na maioria dos casos bem selecionados, a cirurgia melhora muito a apneia e a qualidade de vida, mas nem sempre zera o problema. O sucesso depende do local da obstrução e das características de cada paciente, por isso a avaliação detalhada antes da cirurgia é tão importante.

    Preciso fazer todas essas cirurgias?

    Não. A apneia pode obstruir em pontos diferentes (nariz, palato, paredes da faringe, base da língua), e a cirurgia é individualizada: trata-se apenas o que precisa, muitas vezes em um único tempo cirúrgico.

    A cirurgia substitui o CPAP?

    O CPAP é o tratamento de primeira linha e muito eficaz quando bem tolerado. A cirurgia é a principal alternativa para quem não se adapta ou abandona o aparelho, e às vezes é usada de forma combinada com outras medidas.

    Referências

    1. Senaratna CV, et al. Prevalence of obstructive sleep apnea in the general population: a systematic review. Sleep Medicine Reviews. 2017;34:70-81.
    2. Wali SO, Abalkhail B, Krayem A. Prevalence and risk factors of obstructive sleep apnea syndrome in a Saudi Arabian population. Annals of Thoracic Medicine. 2017;12(2):88-94.
    3. Tufik S, et al. Obstructive Sleep Apnea Syndrome in the São Paulo Epidemiologic Sleep Study (EPISONO). Sleep Medicine. 2010.
    4. McEvoy RD, et al. CPAP for Prevention of Cardiovascular Events in Obstructive Sleep Apnea (estudo SAVE). New England Journal of Medicine. 2016.

    Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.

    Sobre o autor

    Dr. José Eduardo Marcondes

    Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840

    Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Focado no tratamento do ronco e da apneia do sono, obstrução nasal, sinusite crônica, adenoides e amígdalas, em adultos e crianças. Membro da ABORL-CCF e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz.

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  • Fisiologia da Apneia do Sono: O Que Acontece em Nosso Corpo

    Fisiologia da Apneia do Sono: O Que Acontece em Nosso Corpo

    Como Funciona o Episódio de Apneia?

    Durante uma apneia obstrutiva do sono, ocorre um colapso das vias aéreas superiores na região da faringe. Quando você dorme, os músculos da garganta relaxam naturalmente, mas em pessoas com apneia, esse relaxamento é excessivo, fazendo com que a via aérea se feche parcial ou completamente.

    Imagine como se fosse um canudo que se fecha enquanto você tenta respirar através dele. Seu corpo continua fazendo força para respirar, criando uma pressão negativa no peito, mas o ar não consegue passar. Durante cada episódio, que dura pelo menos 10 segundos (podendo chegar a mais de um minuto), seu organismo entra em estado de asfixia.

    O Que Acontece Durante Cada Parada Respiratória

    Quando a respiração para, duas coisas críticas acontecem no seu corpo:

    Hipóxia: A quantidade de oxigênio no sangue diminui drasticamente. É como se todas as células do seu corpo começassem a “passar fome” de oxigênio.

    Hipercapnia: O dióxido de carbono (CO₂) se acumula no sangue, criando um ambiente tóxico. É como se você estivesse respirando em um ambiente com ar viciado.

    Esses eventos fazem com que sensores especiais no seu corpo (chamados quimiorreceptores) detectem o perigo e mandem sinais urgentes para o cérebro: “Precisa respirar agora!”. O cérebro então causa um microdespertar – você não acorda completamente, mas sai do sono profundo o suficiente para que os músculos da garganta se contraiam e reabram a via aérea.

    O Efeito Cascata no Sistema Cardiovascular

    Cada episódio de apneia desencadeia uma tempestade no seu sistema cardiovascular:

    Sistema Nervoso Simpático em Alerta Máximo

    O sistema nervoso simpático – responsável pelas reações de “luta ou fuga” – é ativado intensamente. É uma resposta muito semelhante a ser assaltado ou ser atacado por um animal. A diferença é que isso acontece a noite toda, como se seu corpo pensasse que está em perigo constante. Isso causa:

    • Liberação maciça de adrenalina e outros hormônios do estresse
    • Vasoconstrição: os vasos sanguíneos se contraem violentamente
    • Picos rápidos de pressão arterial: a cada pausa, a pressão dá um pico de poucos segundos, que em casos graves pode passar de 180 a 200 mmHg. Não é uma pressão alta contínua, mas essa oscilação, repetida centenas de vezes por noite, sobrecarrega o coração e os vasos ao longo do tempo
    Ilustração de ladrão representando a apneia do sono roubando a saúde de uma pessoa
    Ladrão apneia roubando a saúde de uma pessoa

    Coração Sob Pressão

    A cada episódio, seu coração sofre um stress tremendo:

    • Aumento súbito da frequência cardíaca
    • Maior risco de arritmias (batimentos irregulares)
    • Hipertrofia do ventrículo esquerdo (o músculo cardíaco fica “inchado” de tanto trabalhar)
    • Risco aumentado de infarto e insuficiência cardíaca

    Impactos da Apneia do Sono nos Sistemas Específicos

    Sistema Respiratório

    • Hipertensão pulmonar: a pressão nos pulmões aumenta devido à falta de oxigênio
    • Alterações no centro respiratório do cérebro
    • Redução da capacidade pulmonar ao longo do tempo

    Sistema Endócrino e Metabólico

    A apneia causa um caos hormonal:

    Resistência à Insulina: A hipóxia e o estresse fazem com que as células não respondam adequadamente à insulina, aumentando o risco de diabetes tipo 2. É como se as “fechaduras” das células (receptores de insulina) ficassem “enferrujadas”.

    Hormônios do Apetite Desregulados:

    • Grelina (hormônio da fome): aumenta drasticamente
    • Leptina (hormônio da saciedade): diminui
    • Cortisol Elevado: O hormônio do estresse permanece alto, causando ganho de peso e alterações metabólicas.

    Sistema Nervoso

    Função Cognitiva Comprometida:

    • Perda de memória e dificuldade de concentração
    • Tempo de reação lento (similar ao efeito do álcool)
    • Maior risco de acidentes de trânsito, cerca de 2 a 3 vezes maior, ainda mais nos casos graves e com muita sonolência (o tratamento com CPAP reduz bastante esse risco)
    • Alterações de humor, depressão e ansiedade

    Risco de AVC: a apneia praticamente dobra o risco de AVC, de forma independente de fatores como pressão, peso e diabetes (estudo publicado no New England Journal of Medicine, 2005), pela combinação de hipertensão, alterações no fluxo sanguíneo cerebral e maior tendência à formação de coágulos.

    Sistema Reprodutor

    A apneia afeta profundamente os hormônios sexuais e a função reprodutiva tanto em homens quanto em mulheres:

    Impactos no Sistema Reprodutor Masculino:

    Queda da Testosterona: A hipóxia intermitente e a fragmentação do sono podem inibir a produção de testosterona através da supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. A apneia obstrutiva está associada a níveis mais baixos de testosterona, sobretudo nos casos mais graves e em homens com obesidade. Boa parte dessa relação, porém, é explicada pelo próprio excesso de peso, e tratar a apneia isoladamente nem sempre normaliza o hormônio.

    Disfunção Erétil: A combinação de baixa testosterona, problemas vasculares, estresse oxidativo e alterações no fluxo sanguíneo peniano fazem com que homens com apneia tenham risco significativamente maior de impotência. A apneia é considerada um fator de risco independente para problemas de ereção.

    Redução da Fertilidade: A qualidade do esperma é prejudicada pela hipóxia e pelo estresse oxidativo, resultando em menor contagem de espermatozoides, redução da motilidade espermática e aumento da fragmentação do DNA espermático. Isso pode causar dificuldades para engravidar e maior risco de abortos espontâneos.

    Impactos no Sistema Reprodutor Feminino:

    Irregularidades Menstruais: A apneia pode causar ciclos menstruais irregulares devido às alterações hormonais, dificultando a identificação do período fértil e reduzindo as chances de concepção.

    Redução da Fertilidade: Mulheres com apneia podem apresentar dificuldades para ovular adequadamente devido ao desequilíbrio dos hormônios FSH (folículo estimulante) e LH (luteinizante), essenciais para a ovulação saudável.

    Problemas na Menopausa: A apneia se torna mais comum após a menopausa devido à queda dos níveis de estrogênio e progesterona, que naturalmente ajudam a manter o tônus muscular das vias aéreas. A deficiência hormonal combinada com a apneia pode criar um ciclo vicioso de piora dos sintomas menopausais.

    Complicações na Gravidez: Mulheres grávidas com apneia têm maior risco de hipertensão gestacional, diabetes gestacional e complicações durante o parto.

    Sistema Imunológico

    A apneia do sono causa uma disfunção profunda no sistema imunológico, criando um estado de inflamação crônica no organismo:

    Estado Inflamatório Persistente: A hipóxia intermitente e a fragmentação do sono fazem com que o corpo produza constantemente citocinas pró-inflamatórias como IL-1, IL-6 e TNF-α. É como se o organismo estivesse sempre “lutando contra uma infecção” que não existe.

    Supressão da Imunidade: O aumento do cortisol e o estresse oxidativo causam imunossupressão, reduzindo a capacidade do corpo de combater infecções reais. Isso resulta em maior susceptibilidade a resfriados, gripes, pneumonias e outras doenças infecciosas.

    Desequilíbrio das Células de Defesa: Ocorre uma redução nas células CD3+, CD4+ e CD8+ (linfócitos importantes para a defesa) e uma alteração no equilíbrio entre a resposta imune celular (Th1) e humoral (Th2), favorecendo um padrão similar ao observado em doenças autoimunes.

    Redução da Atividade das Células NK: As células Natural Killer, que ajudam a defender o corpo, podem ter a atividade reduzida. Pesquisas em laboratório sugerem que isso poderia enfraquecer as defesas contra tumores, mas é importante deixar claro que se trata de uma hipótese em investigação: não está provado que a apneia cause câncer em pessoas.

    Estresse Oxidativo: O Ataque dos Radicais Livres

    Um dos efeitos mais danosos da apneia é a criação de radicais livres. A cada ciclo de falta de oxigênio seguida de reoxigenação, é como se você fizesse um “exercício extremo” para suas células, gerando substâncias tóxicas que danificam:

    • Vasos sanguíneos (acelerando o processo de aterosclerose)
    • Células do coração
    • Neurônios no cérebro
    • Células do pâncreas (piorando o diabetes)

    O Ciclo Vicioso

    A apneia cria um ciclo vicioso difícil de quebrar:

    1. Apneia → Ganho de peso (devido aos hormônios alterados)

    2. Ganho de peso → Piora da apneia (mais tecido na garganta)

    3. Apneia pior → Mais problemas metabólicos

    4. Mais problemas → Mais ganho de peso

    Impacto na Saúde Global

    Cardiovascular: cerca de metade das pessoas com apneia também têm pressão alta, e a apneia é uma causa reconhecida de hipertensão de difícil controle. Estudos de longo prazo mostram que a apneia grave chega a quase triplicar o risco de desenvolver hipertensão. O risco de infarto, arritmias e insuficiência cardíaca também aumenta.

    Metabólico: A prevalência de diabetes tipo 2 é muito maior em pacientes com apneia, independentemente do peso.

    Neurológico: Maior risco de demência, perda de memória e acidentes devido à sonolência.

    Imunológico: Maior susceptibilidade a infecções. A relação com alguns tipos de câncer é uma hipótese ainda em estudo, não uma certeza.

    Reprodutivo: Redução da fertilidade, disfunção sexual, irregularidades menstruais e complicações hormonais que afetam a qualidade de vida sexual e reprodutiva.

    Qualidade de Vida: Sonolência excessiva, depressão, problemas de relacionamento e redução significativa da produtividade.

    A Boa Notícia

    O aspecto mais importante é que o tratamento da apneia pode reverter muitos desses problemas. Quando a respiração é normalizada durante o sono (com CPAP, aparelhos intraorais ou cirurgia), observa-se:

    • Redução da pressão arterial
    • Melhora do controle do diabetes
    • Redução do estresse oxidativo
    • Melhora da função cognitiva e do humor
    • Melhora do ronco, da sonolência e da qualidade de vida

    O tratamento melhora comprovadamente os sintomas, o sono, o humor e a qualidade de vida, além de ajudar no controle da pressão. Tratar vale muito a pena pelos sintomas, pela pressão e pela qualidade de vida.

    Isso demonstra como um distúrbio aparentemente “simples” do sono pode ter consequências profundas para todo o organismo, mas também como o tratamento adequado pode transformar a saúde e a qualidade de vida de uma pessoa. Veja como funciona a cirurgia do ronco e da apneia.

    Perguntas frequentes

    A apneia do sono causa câncer?

    Não está provado. Pesquisas de laboratório sugerem que a falta intermitente de oxigênio pode enfraquecer parte das defesas do corpo (as células de defesa NK), mas isso ainda é uma hipótese em estudo, não uma relação de causa e efeito comprovada em pessoas.

    Tratar a apneia previne infarto e AVC?

    O tratamento melhora comprovadamente o ronco, a sonolência, o humor, a qualidade de vida e ajuda no controle da pressão. Já a prevenção de infarto e AVC não foi demonstrada pelo maior estudo randomizado (SAVE, 2016). Ainda assim, tratar é muito importante pelos sintomas, pela pressão e pela qualidade de vida.

    A apneia aumenta a pressão?

    Sim. A cada pausa há um pico rápido de pressão, e ao longo do tempo a apneia é uma causa reconhecida de pressão alta, sobretudo a de difícil controle. A apneia grave chega a quase triplicar o risco de hipertensão.

    Referências

    1. Peppard PE, Young T, Palta M, Skatrud J. Prospective study of the association between sleep-disordered breathing and hypertension. New England Journal of Medicine. 2000;342:1378-1384.
    2. Yaggi HK, et al. Obstructive sleep apnea as a risk factor for stroke and death. New England Journal of Medicine. 2005;353:2034-2041.
    3. Tregear S, et al. Obstructive sleep apnea and risk of motor vehicle crash: systematic review and meta-analysis. Journal of Clinical Sleep Medicine. 2009.
    4. McEvoy RD, et al. CPAP for Prevention of Cardiovascular Events in Obstructive Sleep Apnea (estudo SAVE). New England Journal of Medicine. 2016.
    5. Su L, et al. Association between obstructive sleep apnea and male serum testosterone: a systematic review and meta-analysis. Andrology. 2022.

    Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.

    Sobre o autor

    Dr. José Eduardo Marcondes

    Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840

    Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Focado no tratamento do ronco e da apneia do sono, obstrução nasal, sinusite crônica, adenoides e amígdalas, em adultos e crianças. Membro da ABORL-CCF e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz.

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  • O Sono Como Aliado: Construindo Noites Transformadoras para Dias Melhores

    O Sono Como Aliado: Construindo Noites Transformadoras para Dias Melhores

    Dormir bem é uma necessidade, não um luxo!

    Imagine acordar todas as manhãs sentindo-se verdadeiramente descansado, com energia para enfrentar os desafios do dia e disposição para aproveitar cada momento. Essa não é uma realidade distante ou um privilégio de poucos – é o resultado natural de um sono de qualidade, algo que todos podemos conquistar com os hábitos certos.

    O sono vai muito além do simples descanso. É durante essas horas preciosas que nosso corpo se renova completamente: o sistema imunológico se fortalece, a memória se consolida, os tecidos se reparam e os hormônios essenciais são produzidos. Quando dormimos bem, não apenas recuperamos energia, mas literalmente nos preparamos para sermos a melhor versão de nós mesmos no dia seguinte.

    A Conexão Entre Mesa e Cama: Como a Alimentação Influencia o Sono

    O que colocamos no prato tem um impacto direto na qualidade das nossas noites. Alguns alimentos são verdadeiros aliados do sono, enquanto outros podem transformar a hora de dormir em uma batalha frustrante.

    Os protagonistas de um jantar amigo do sono incluem alimentos ricos em triptofano, um aminoácido que o corpo converte em serotonina e, posteriormente, em melatonina – o famoso hormônio do sono. Peixes como salmão e atum, carnes brancas como frango e peru, ovos, leite e derivados, além de castanhas e sementes, são excelentes opções para incluir na rotina alimentar.

    Alimentos ricos em triptofano que favorecem o sono, como peixes, carnes brancas, ovos, leite e castanhas

    As frutas também merecem destaque especial. A banana, além de triptofano, oferece magnésio e potássio, minerais que ajudam no relaxamento muscular. Cerejas são fontes naturais de melatonina, enquanto o kiwi tem propriedades que facilitam tanto o adormecer quanto a permanência no sono profundo.

    Para o jantar, a regra de ouro é simplicidade e leveza. Refeições muito pesadas, ricas em gordura ou condimentadas podem causar desconforto digestivo e atrapalhar o sono. O ideal é fazer a última refeição pelo menos duas horas antes de deitar, permitindo que o processo digestivo não interfira no descanso.

    Alguns cuidados são fundamentais: evite cafeína após as 14h, pois ela pode permanecer ativa no organismo por até 8 horas. Chocolate, refrigerantes e até mesmo alguns chás contêm substâncias estimulantes. O álcool, embora inicialmente cause sonolência, fragmenta o sono durante a madrugada, resultando em um descanso de baixa qualidade.

    Movimento que Embala: O Papel dos Exercícios na Qualidade do Sono

    A atividade física regular é um dos investimentos mais valiosos que podemos fazer para melhorar nosso sono. Pessoas fisicamente ativas têm quase o dobro de probabilidade de manter um sono de alta qualidade em comparação àquelas sedentárias.

    Os exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida, natação ou ciclismo, são especialmente benéficos. Eles aumentam a circulação sanguínea, promovem o relaxamento e ajudam a regular os ritmos circadianos do corpo. Apenas 30 minutos de atividade moderada já podem fazer diferença significativa na facilidade para adormecer e na profundidade do sono.

    O timing dos exercícios também importa. Atividades realizadas pela manhã ou tarde ajudam a sincronizar o relógio biológico, enquanto exercícios intensos muito próximos da hora de dormir podem ter efeito estimulante. O ideal é finalizar treinos vigorosos pelo menos 3 horas antes de deitar.

    Para quem tem pouco tempo, atividades mais leves como yoga, pilates ou alongamentos antes de dormir podem ser excelentes opções. Elas promovem relaxamento muscular e mental, criando uma transição natural entre o estado de vigília e o sono.

    Criando o Santuário do Descanso: O Ambiente Ideal

    Seu quarto deve ser um convite ao relaxamento. Pequenos ajustes no ambiente podem transformar completamente a qualidade do seu sono, sem grandes investimentos.

    A temperatura é um fator crucial e muitas vezes negligenciado. O ambiente ideal para dormir deve estar entre 18°C e 22°C. Nosso corpo naturalmente diminui a temperatura durante o sono, e um quarto muito quente ou frio pode interromper esse processo natural. Use roupas de cama apropriadas para a estação e mantenha boa ventilação.

    A escuridão é fundamental para a produção adequada de melatonina. Cortinas blackout ou máscaras de dormir podem ser grandes aliadas, especialmente se você mora em áreas com muita iluminação externa. Evite luzes azuis de dispositivos eletrônicos pelo menos uma hora antes de dormir, pois elas “enganam” o cérebro, fazendo-o acreditar que ainda é dia.

    O silêncio também contribui para um sono reparador. Se não é possível controlar ruídos externos, considere usar protetores auriculares ou sons relaxantes que mascarem os barulhos incômodos.

    A organização do espaço influencia diretamente nossa capacidade de relaxar. Um quarto limpo e organizado transmite sensação de tranquilidade, enquanto ambientes bagunçados podem gerar ansiedade inconsciente.

    Rotinas que Transformam: Construindo Hábitos Poderosos

    A consistência é a chave para um sono de qualidade. Nosso corpo funciona melhor com rotinas previsíveis, e isso inclui os horários de dormir e acordar.

    Estabeleça um horário fixo para deitar e levantar, mesmo nos fins de semana. Essa regularidade ajuda a ajustar o relógio biológico interno, fazendo com que você sinta sono naturalmente no horário adequado e acorde mais disposto.

    Crie um ritual de relaxamento antes de dormir. Isso pode incluir um banho morno, leitura de um livro, meditação ou técnicas simples de respiração. O importante é que sejam atividades calmas e prazerosas, que sinalizem ao corpo que é hora de se preparar para o descanso.

    Se não conseguir adormecer em 20 minutos, saia da cama e faça uma atividade relaxante em outro ambiente, retornando apenas quando sentir sono. Isso evita que o cérebro associe a cama com insônia e ansiedade.

    Pequenas Mudanças, Grandes Transformações

    Melhorar a qualidade do sono não exige mudanças radicais na rotina. Pequenos ajustes consistentes podem gerar resultados surpreendentes. Comece escolhendo uma ou duas sugestões que façam mais sentido para sua realidade atual e implemente gradualmente.

    Lembre-se de que cada pessoa é única, e pode levar algumas semanas para que seu corpo se adapte às novas rotinas. Seja paciente consigo mesmo nesse processo de transformação.

    Quando priorizamos o sono, estamos investindo em nossa saúde física, mental e emocional. Estamos escolhendo ter mais energia, melhor humor, maior capacidade de concentração e um sistema imunológico mais forte. Em um mundo que frequentemente glorifica a privação de sono como sinal de produtividade, cuidar do seu descanso é um ato de autocuidado e sabedoria.

    Noites bem dormidas são a base para dias extraordinários. Que tal começar hoje mesmo a construir esse alicerce sólido para uma vida mais plena e saudável?

    Quarto aconchegante com luz baixa de abajur, preparado para uma boa noite de sono

    Dr. José Eduardo Marcondes, médico otorrinolaringologista, CRM-SP 107.711, RQE 43.840. Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.

    Sobre o autor

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  • Cirurgia Robótica Transoral (TORS): A Evolução no tratamento da apneia

    Cirurgia Robótica Transoral (TORS): A Evolução no tratamento da apneia

    A cirurgia robótica transoral (TORS) representa um dos maiores avanços tecnológicos no tratamento cirúrgico da síndrome da apneia e hipopneia obstrutiva do sono (SAHOS). Esta técnica tecnologia tem revolucionado a abordagem terapêutica de pacientes que apresentam obstrução em áreas anatômicas específicas, particularmente na parede lateral da faringe e na base da língua, oferecendo uma alternativa eficaz e segura aos tratamentos convencionais.

    Fundamentos da Cirurgia Robótica Transoral

    A TORS utiliza o sistema cirúrgico da Vinci, aprovado pelo FDA americano em dezembro de 2009, desenvolvido inicialmente na Universidade da Pensilvânia. Este sistema revolucionário emprega uma plataforma computadorizada de alta precisão que permite ao cirurgião operar através da boca do paciente, sem necessidade de incisões externas.

    Apresenta os 3 componentes do robo cirurgico DaVinci: Console, Carrinho da Visao e Carrinho do Paciente

    Componentes do robô cirúrgico DaVinci
    O equipamento é composto por três componentes principais: o console do cirurgião, o carrinho do paciente com braços robóticos, e o carrinho de visão. O cirurgião controla os instrumentos robóticos através de um console semelhante a um videogame, utilizando controladores que reproduzem com precisão os movimentos das mãos, mas com maior destreza e eliminação de tremores

    Um aspecto importante é que o robô cirúrgico não é uma técnica cirúrgica nova. Ele é um instrumento que pode ser utilizado para extrair os melhores resultados das diversas técnicas cirúrgicas existentes. Por exemplo, a faringoplastia expansora é uma técnica muito utilizada para o tratamento da apneia do sono e pode ser realizada sem o uso do robô, mas, com a incorporação da tecnologia robótica é possível alcançar resultados mais satisfatórios com menor índice de complicações, utilizando a mesma técnica.

    Componentes do robô cirúrgico DaVinci

    Componentes do robô cirúrgico DaVinci

    Anatomia e Fisiopatologia da Obstrução

    A síndrome da apneia e hipopneia obstrutiva do sono (SAHOS) resulta do colapso das vias aéreas superiores durante o sono, causado pelo relaxamento da musculatura faríngea. As principais áreas de obstrução incluem:

    Parede Lateral da Faringe

    O colapso das paredes laterais da faringe representa uma das principais causas de obstrução em pacientes com SAHOS. Durante o sono, a perda do tônus muscular permite que essas estruturas se aproximem, reduzindo significativamente o calibre da via aérea.

    Base da Língua

    A base da língua constitui um dos locais mais desafiadores para intervenção cirúrgica tradicional. A hipertrofia do tecido linfático (tonsilas linguais) ou o aumento do volume da musculatura intrínseca da língua podem causar obstrução significativa durante o sono.

    Vantagens da Abordagem Robótica

    Benefícios Técnicos

    • Visualização 3D magnificada: Permite identificação precisa das estruturas anatômicas e maior segurança durante a dissecção
    • Instrumentos articulados: Movimentos em 360 graus com precisão superior à mão humana
    • Filtração de tremores: Elimina movimentos involuntários, aumentando a precisão cirúrgica
    • Alcance a estruturas de difícil acesso: cirurgias em locais como a base da língua e tonsilas linguais são tecnicamente muito difíceis de se realizar sem o auxilio do robô
    Sistema de cirurgia robótica utilizado na cirurgia robótica transoral (TORS)

    Benefícios Clínicos

    • Menor sangramento intraoperatório: Precisão dos instrumentos robóticos reduz trauma tecidual
    • Recuperação mais rápida: Precisão e menor trauma levam a uma recuperarão mais rápida
    • Preservação funcional: Menor risco de complicação e alteração das funções como deglutição e fala

    Para quem essa cirurgia é indicada?

    A cirurgia robótica para apneia é uma excelente alternativa para aquelas pessoas que não se adaptaram ao CPAP ou a qualquer outro tratamento clínico para a apneia do sono.

    Para indicação cirúrgica é fundamental a realização de uma polissonografia, aonde será avaliado o índice de apneia e hiponeia, a presença de dessaturação de oxigênio, alterações da frequência cardíaca, entre outros parâmetros.

    Exames de imagem , como tomografia computadorizada, são utilizados para avaliar as estruturas anatômicas da região

    Além disso uma avaliação física minuciosa , associado ao exame de nasofibroscopia vão trazer informações importantes sobre a viabilidade da cirurgia.

    Em alguns casos o exame de sonoendoscopia pode ser necessario para trazer informações adicionais.

    Após tudo isso, cada caso será analisado individualmente e a melhor conduta para caso podenser definida. Veja também como funciona a cirurgia do ronco e da apneia.

    Perspectivas Futuras

    A cirurgia robótica continua evoluindo, com perspectivas promissoras. A diminuição do tamanho do braço do robô e incorporação de tecnologias como o laser de CO2 sao passos que visam ampliar as possibilidades de uso.

    As novas fronteiras são a utilização do robô como plataforma de realidade aumentada, além da utilização de IA, para tornar as cirurgias mais precisas , seguras e eficientes.

    Sentado no console do robô prestes a iniciar uma cirurgia de faringoplastia para tratamento da apneia do sono

    Sentado no console do robô prestes a iniciar uma cirurgia de faringoplastia para tratamento da apneia do sono


    Dr. José Eduardo Marcondes, médico otorrinolaringologista, CRM-SP 107.711, RQE 43.840. Este conteúdo é informativo, não substitui a consulta médica e não dispensa a conduta definida pelo seu médico.

    Sobre o autor

    Dr. José Eduardo Marcondes

    Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840

    Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Focado no tratamento do ronco e da apneia do sono, obstrução nasal, sinusite crônica, adenoides e amígdalas, em adultos e crianças. Membro da ABORL-CCF e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz.

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